São pessoas bem-intencionadas. Com preparo. Mas falam coisas sem pé nem cabeça usando um tipo de raciocínio que é encaixado a marteladas. Chega a época de campanha e o mais comum é se ouvir que o eleitor sabe votar e que as mentiras desavergonhadas, que se cometem na campanha, fazem parte do jogo, as promessas são fatos corriqueiros; o falho é a cobrança, depois da eleição, por parte da sociedade.
É verdade que uma afirmação anula a outra. Se o eleitor fosse o sábio dos sábios na hora de votar, nem precisaria cobrar nada porque o seu candidato eleito também seria sábio, não faria promessas vãs e nem descumpriria o acordo firmado na campanha de bem governar. Nessa toada vai se chegar ao não-governo porque as pessoas seriam tão organizadas socialmente que não precisariam de alguém com poder coercitivo ou de estabelecer regras. É claro que esses bem-intencionados não pensam dessa forma. É um exagero. Mas que existe uma tendência existe.
A realidade não é tão cor-de-rosa. Nós temos 60% do eleitorado na faixa que vai dos analfabetos até aqueles que têm só o 1º grau incompleto. Claro que o brasileiro tem ginga, é maneiro, ‘‘exxxpeeerto’’, sabe se virar diante das maiores adversidades. Mas não está combinado com o time adversário que também tem as mesmas qualidades acrescida de mais uma: o dinheiro, que nesse caso não tem função positiva, ao contrário, é usado para manipular enganar e corromper.
Não dá para levar a sério proposta de candidato. Outro dia em São Paulo, o senador Romeu Tuma prometeu que, se for eleito prefeito, vai dar plano de saúde para todo mundo. Ele disse que os pobres vão ter carteirinha, hora marcada de consulta, vão poder escolher o médico. Por esse caminho, até o final da campanha, Tuma vai anunciar também resgate de avião e de helicóptero, implante de silicone e lipoaspiração.
O grotesco da situação não são essas promessas que podem até ser tidas como engraçadas. O grotesco é que os estrategistas de Tuma atribuem a esse plano do futuro governo do senador a subida do candidato nas pesquisas. É chocante. Mostra que o eleitor é dócil a qualquer tipo de canalhice e não tem poder de discernimento.
Além disso, os candidatos mostram suas versões de realidade. A realidade que beneficie cada um. Seria uma exagero imaginar que os candidatos fossem 100% honestos nas suas aparições na televisão e nas suas falas no rádio. Um confessando que superfaturou o preço da construção de uma ponte. Outro admitindo que manobrou a concorrência de determinada obra para favorecer um amigo. E ainda aquele outro afirmando que desviava dinheiro, sim, de determinada companhia estatal. Não ia dar certo. A coisa poderia terminar com candidatos aos prantos pedindo que o povo não votasse neles. ‘‘Eu sou canalha’’, seria a última frase de campanha de alguns concorrentes.
Não ficaria bem. Mas como a moda é mostrar tudo na televisão, até os podres de cada um, como ‘‘No limite’’, não seria de admirar que aquele que desempenhasse o papel de ‘‘Madalena arrependida’’ tivesse uma votação estrondosa e fosse convidado para posar na ‘‘Playboy’’.
Faz-se campanha para que as pessoas votem certo. Para escolher direito. Saber quem são os candidatos. Para não ir atrás de promessas. Todas essas coisas que deveriam ser corriqueiras em uma eleição que de fato expresse a vontade popular na escolha de seus governantes.
Tudo bem. Mas cadê a informação? O que se vê na televisão é um amontoado de parlapatões anunciando que vão nos levar à Terra Prometida. Depende de alguém acreditar. Mas a verdade é que o voto está mudando de rumo, está se tornando o voto por exclusão. O voto no menos pior. E assim não dá para alterar nada. Isso porque falta um dos instrumentos principais para que a decisão do voto seja acertada a informação. A não ser que se considere informação aquele bando de sujeitos mal vestidos dizendo que suas prioridades são saúde, segurança e educação. E, mais chocante, que são candidatos.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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