A lisura não faria mal algum ao Palácio do Planalto, que hoje vive cercado por um mar de lama, sob constante suspeição
O governo lançou-se sobre o Congresso e enterrou a esperança que todo o País tinha de ver desvendados os escândalos no Poder Executivo. A CPI da Corrupção morreu. A Nação está envergonhada, de cabeça baixa. Foi vencida pela omissão, pela barganha e por interesses menores. Com a desfaçatez que o caracteriza, o governo Fernando Henrique Cardoso ignorou a opinião pública, pisoteou as evidências de ilegalidades em vários órgãos públicos, manobrou para esconder a verdade. O Planalto acha que ganhou. Quem perdeu?
As lideranças governistas na Câmara e no Senado apresentaram à Nação muitas justificativas esfarrapadas para se colocarem contra a CPI. Nenhuma delas tem sustentação. Nem na lei, nem na legitimidade. Muito menos nos fatos. Uma das alegações é que se temia que a investigação paralisasse atividades do Congresso, impedindo o exame de questões de vital importância para o País.
Pesquisa feita pela liderança do PPS no Setor de Sinopse da Câmara revela dados que desmontam por completo o engodo governista. Examinei, para fazer uma comparação adequada, os números relativos à CPI que resultou no impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, e a que investigou os escândalos do Orçamento da União, em 1997.
Da instalação da CPI do impeachment, em 1º de junho de 1992, até o encerramento de seus trabalhos, em 14 de setembro do mesmo ano, a Câmara aprovou 55 proposições. Entre elas, a que dispõe sobre a Lei Orgânica do Tribunal de Contas da União e a que organiza a Justiça Militar. Em igual período do ano de 1997, sem o funcionamento de nenhuma CPI polêmica, a Casa aprovou 54 proposições, uma a menos que as acatadas durante a crise do impedimento de Collor.
Enquanto estava em curso a CPI do Orçamento, de 20 de outubro de 93 a 21 de janeiro de 1994, os deputados aprovaram 68 projetos. Viraram leis, por exemplo, a proposta relativa ao Imposto Territorial Rural (ITR) e a da política nacional para idosos, incluindo a criação do Conselho Nacional do Idoso. Tomando equivalente espaço de tempo, de 20 de outubro de 1994 a 21 de janeiro de 1995, período em que não havia as turbulências de uma grande CPI, constatamos a aprovação, pelo plenário da Câmara, de 66 propostas.
Esses dados, por sua nitidez, fazem ruir a argumentação do governo. Os números mostram que a Câmara funciona melhor com uma CPI polêmica do que sem a investigação.
Da mesma forma, ao contrário de trazer a ingovernabilidade, conforme os governistas juravam antever, a CPI da Corrupção poderia gerar um país muito mais governável, ao passar a limpo as denúncias de desvio de dinheiro público.
Não se pode deixar de investigar por medo da investigação. A lisura não faria mal algum ao Palácio do Planalto, que hoje vive cercado por um mar de lama, sob constante suspeição, assistindo, impassível, a desfiles ininterruptos de escândalos.
- RUBENS BUENO (PR) é líder do PPS na Câmara dos Deputados

mockup