A cama antes da fama
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de dezembro de 1996
José Nêumanne 
Crie fama e deite na cama, diziam os antigos. Agora, a coisa virou: deite na cama e crie fama, garantem os contemporâneos. Em nossa sociedade de massas, ter merecido as atenções sexuais de alguma personalidade pública já garante glória e fortuna a um novo tipo de alpinista social - quem não teve a sorte de nascer em berço de ouro passou a dispor da oportunosa ensancha de bordar lençóis e fronhas com o metal precioso.
A vendedora Vanessa Ferreira Fagundes, de 20 anos, que há dois meses começou a namorar o assaltante e sequestrador Leonardo Pareja, é a mais recente associada desse clube afortunado. Seus 15 minutos de notoriedade foram desfrutados já no velório do amado famoso: vestida de preto e exibindo o carmesim dos lábios, ela se destacou entre as dezenas de ex-namoradas espalhadas pelos salões do Cemitério Parque Memorial, em Goiânia, onde o rapaz foi enterrado. Curiosos, alguns dos quais manipulando o cadáver sem respeito nem pudor, a reconheceram pelas notícias da televisão e lhe pediram autógrafos, a que ela, docemente constrangida, acedeu.
A julgar por notícias diretas de enterro, Vanessa tem tudo para cumprir os ritos exigidos de quem chega à fama após fugaz passagem horizontal sobre os colchões. Diz a polícia que ela foi a última pessoa a estar com o morto anunciado. Isso lhe deu a oportunidade de falar de seus últimos desejos. A dita cuja não se fez de rogada: já saiu de cara dizendo que o bandido-galã planejava fugir da prisão agrícola fantasiado de mulher.
A revelação contém um detalhe picante. Parte da popularidade de Pareja veio de sua decantada superioridade intelectual sobre os perseguidores da polícia (qual a vantagem, hein?) e outra parte de seu temperamento loquaz. E também o fato de ele ser um rapaz esteticamente apresentável conta pontos a seu favor. A perspectiva da fuga travestida pode estimular as fantasias eróticas de adolescentes carentes de ídolos e ocupação.
Além disso, a perspectiva provocou uma outra característica inevitável dessas versões contemporâneas da viúva Porcina (aquela da novela da tevê, a que foi sem nunca ter sido, lembram-se?) - o conflito com a família enlutada. Ela está mentindo. Leonardo nunca disse isso, rebateu uma tia do rapaz, Maria Inocência dos Santos. Titia, aliás, a definiu como um traste. Et pour com cause... se não fosse, o que ela poderia querer se envolvendo romanticamente com alguém com muito passado, mas parco futuro, como o querido sobrinho?
Em apoio às pretensões da mocinha, é possível recordar a saga de uma de suas mais bem-sucedidas antecessoras, Adriana Galisteu, tratada como uma oportunista vulgar pela família do ídolo Airton Senna - o que não a impediu de se tornar famosa e rica propagandista de métodos naturais de depilação do púbis. O ódio da família pode até provocar a simpatia do público pelo abandono a que a quase sempre bela viúva foi relegada. Além do mais, muitas vezes o desprezo do clã vem na má companhia da avareza. A dor de familiares de pessoas famosas não os têm tornado indefesos à cobiça.
Como a Galisteu, Vanessa tem a vantagem da exclusividade. Por mais aventureiras que possam ter afagado Pareja na prisão, nenhuma foi tão rápida para reivindicar logo no velório a oportunidade da viuvez. Além disso, ela não terá que disputar com nenhuma delas o bilhete lotérico premiado que lhe proporciona o fato de haver namorado uma personalidade pública em batalhas verbais, como as travadas por Mirella Zacanini e Valéria Zopello pelo episódio sentimental de Dinho, o vocalista dos Mamonas Assassinas.
Eis aí, aliás, uma vantagem que, felizmente, também nos atinge, prezado leitor. Uma namorada só, se tiver a idéia de procurar um ghost writer na feira livre das disponibilidades literárias, também cometerá uma agressão só à já combalida beleza da cada vez mais inculta última flor do Lácio. Seja como for, é lícito esperar que a mais fresca viuvinha queira se tornar o mais novo êxito literário da praça, antes de estudar uma proposta para posar nua para alguma revista destinada ao ansioso público masculino.
Pelo nome da filha que ela teria com Pareja, Adrenalina, convém aguardar emoções. Estas talvez não venham a ser tantas como as proporcionadas por Suzana Marcolino, acusada mesmo depois de morta, de ter assassinado o tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello, PC Farias. Mas certamente serão maiores do que as propiciadas por outra viúva alagoana de PC, a bela, loura e bem nascida Cláudia Dantas, mais para porcelana do que para Porcina. Muito embora a insossa musa de Caras não recuse faturas por ter sido a que poderia ter sido, porque quase fora.
A proximidade da glória oferece muitas oportunidades de fortuna. Que o diga Mônica Santoro, esperta viúva rica de marido vivo, o artilheiro Romário. Na sociedade da informação instantânea, como na vida, as chances podem começar no leito. Trata-se de um tipo moderno de amadorismo às vezes mais rentável e tido como mais respeitável do que a mais antiga e mais desprezível das profissões.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista, escritor, é profissional da comunicação e admirador do amadorismo que gera riquezas e sucesso.


