A calmaria e a tempestade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 02 de dezembro de 2002
Nivaldo Cordeiro 
Vivíamos a calmaria enganosa da chamada transição pacífica, aquela que sempre costuma anteceder as grandes tempestades. A calmaria findou, até porque as contradições entre as promessas demagógicas da campanha eleitoral e a realidade ficaram agora explícitas: Lula não dará recursos aos Estados (nem a Minas), nem aumentos cavalares no salário mínimo e, menos ainda, aumento generoso no salário do funcionalismo. Sensato. Resta saber o que fará com o FMI e os credores, pontos onde realmente será definido o destino de seu governo. Se hesitar aqui, jogará o País numa crise catastrófica.
Os raios e os trovões já ecoam muito perto e o zunido do vento lembra aquele de filmes de horrores. A sensação de empobrecimento rápido toma conta de largas parcelas da população. Então, quem está ganhando? Os de sempre, os credores do Estado, seus fornecedores e aqueles que são beneficiados com rendas extraídas diretamente dos impostos cobrados, como as aposentadorias imorais do setor público. E também os exportadores, beneficiários diretos da mudança de preços relativos imposta pela desvalorização do câmbio.
A ascensão de Lula e seu grupo ao poder, por si só, já era um símbolo a espelhar o auge e por que não dizê-lo? o ocaso de nossa democracia. Lula ele mesmo é o símbolo de nossa decadência política, pois é alguém notavelmente despreparado para o exercício da magna função pública, a Presidência da República. Num contexto de crise profunda, seu despreparo colocará a Nação brasileira numa situação verdadeiramente desesperadora. É como se um grumete tivesse sido alçado à condição de um capitão de um transatlântico, avariado em alto mar e sem qualquer comunicação com as bases em terra.
O ponto é que não há mais como fugir da discussão central: o Estado e a sua exorbitância é que estão na raiz de todas as nossas mazelas. Só escaparemos de uma argentinazação rápida se a elite dirigente se convencer disso e tomar as decisões cabíveis, a fim de enquadrá-lo em um tamanho suportável para o povo. Do contrário, já em 2003 viveremos um dos tempos mais difíceis de nossa História.
Quem viver, chorará. Quem votou no homem, que se penitencie.
NIVALDO CORDEIRO é jornalista em Brasília (DF)


