A política, mesmo para raposas matreiras, é uma caixa de mistérios. Nem sempre a lógica predomina na política, principalmente quando variáveis são controladas pelos cidadãos. Veja só a situação: José Serra, o poderoso ministro da Saúde, que se esforça para montar o cavalão popular dos remédios genéricos, não sai dos míseros 7% de intenção de voto nas pesquisas. O governador do Rio, Garotinho, quase novato para o eleitorado, já está com quase 14%, empatado com Itamar e na frente de Ciro Gomes. Tasso, o governador do Ceará, está abaixo dos 5%, mesmo considerado administrador eficiente e experiente, de perfil moderno e boa pinta. O que explica essas posições?
Tentemos algumas hipóteses. A primeira: neste momento, o eleitorado está juntando alhos com bugalhos. No caso, Serra está sendo posto na vidraça governamental e não na sacola de remédios. Assim, as pedras jogadas em José Serra, simbolizadas por tão fraco apoio popular, querem significar uma rejeição ao próprio governo, a quem serve. O remédio barato não consegue romper a camada de negatividade que a população colocou sobre a administração federal.
Segunda hipótese: Serra não tem empatia e carisma. Trata-se de um perfil técnico, pessoa muito habilitada, mas sem ganchos que o aproximem do povo. Terceira hipótese: o eleitorado está cansado da mesmice. O ministro da Saúde integra um governo que se arrasta por seis anos e meio. A reeleição acabou saturando a imagem dos governantes. Com raras exceções, os governadores reeleitos sofrem da síndrome da ‘‘música de uma nota só’’. Suas atitudes, ações e gestos já são conhecidos; as pessoas que os cercam têm cara de feijão com arroz requentado.
Isso explica, em parte, o sucesso de pessoas como Garotinho, um perfil em crescimento. Queiram ou não, ele significa novidade, mesmo que certos críticos o comparem ao ex-presidente Collor, na forma de apropriação de um discurso populista.
Ora, o povo está sedento de situações originais. Quando o circo apresenta os mesmos bichos, os mesmos palhaços e trapézios, a garotada não se anima tanto. O elemento novo no circo desperta atenção, gera impacto, aguça a curiosidade. Garotinho começa a se fazer de vítima de uma trama engendrada pela máquina de Fernando Henrique; usa, de maneira adequada, mesmo que oportunista, a invocação divina, protegendo-se no gigantesco manto evangélico que cobre importantes pedaços do País.
E aqui está a hipótese seguinte: a fé remove montanhas. O povo brasileiro tem o coração voltado para os céus, para o divino, para a súplica, para a confissão dos pecados, para a redenção, para a esperança. Imensas parcelas do eleitorado vivem nos porões da exclusão, onde a miséria se agarra ao desespero para formar os contingentes aflitos.
O País atravessa momentos de grandes angústias com a violência urbana, o aperto no bolso, a volta da carestia, os salários dos funcionários públicos comprimidos, a insatisfação das classes médias. Se estas resistem ao apelo evangélico de Garotinho, preferindo a opção Lula ou a alternativa da grande interrogação que é Itamar Franco, as margens periféricas se identificam com o apelo: ‘‘o Senhor é meu escudo e minha fortaleza, a quem temerei?’’
Portanto, o que está em jogo é o canto da esperança contra a música de uma nota só. Onde fica Ciro Gomes nesta partitura? Ciro começa a cair porque entrou num carro de som muito barulhento. Como peixe, começa a morrer pela boca. Fala o que não deve e começa a cometer os mesmos erros clássicos que marcaram o passado do PT: excesso de diagnóstico e carência de solução.
Ciro não canta o hino da esperança nem assovia melodias novas, porque sua ligação com o PTB não traduz nenhuma novidade ou sinalização para mudança. O velho PTB é um guerreiro cansado, que muda de luta conforme a moeda de troca.
Quem poderia tocar algo de novo? O ministro Pedro Malan? Pode ser. É o único que está fazendo oposição vigorosa a Lula, não se cansa de defender o governo, e, pelo menos no aspecto estético, com aquelas imensas bolsas debaixo dos olhos, pode ser o perfil novidadeiro do governismo. É claro que será identificado com tudo de ruim da administração federal. Será o Judas malhado da quarta-feira de cinzas. Mas, se a situação do País melhorar até outubro de 2001?
Por enquanto, tudo indica que o processo evolutivo da política está em marcha. O rodízio democrático é mais provável que o continuísmo. Tudo isso a ser conferido pela engenhosa caixinha de surpresas que é a política.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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