A bomba - TT Catalão
A bomba
T.T. Catalão
Parece fora de moda falar hoje em bomba atômica. Dizem que os norte-americanos e os russos desativaram mesmo suas ogivas. Acredite se quiser, mas o anúncio oficial da bomba de nêutron chinesa feito no último dia 15 não é um fato tão simplório. Nos acostumamos com a banalização da mídia que faz showzinho de Nostradamus lá, mostra um massacre ali, denuncia o corrupto da vez aqui, embala frivolidades de cá e no fim estamos anestesiados para o sentido real da notícia que interessa.
O mesmo tom de voz que fala do orgasmo do Tom Cruise anuncia que a China tem a bomba de nêutron. E boa noite. Não há o menor peso de valor entre uma coisa e outra. A vida precisa continuar estável pois as bolsas ficam nervosas, por exemplo.
Parece ser proibido pensar. Fica chato. Tira o ritmo do horário nobre. Dizem até que análises e críticas chateiam o leitor. Como se a geração saúde das flexões abdominais detestasse reflexões estruturais. O fato é que a China anunciou oficialmente a bomba capitalista, exatamente aquela grande sacada da destruição maciça que preserva material e elimina incômodos seres vivos.
Chineses não brincam e o fato de ser oficial preocupa. É ameaça explícita. Sabia-se de um teste em 1988 visto como teste blefe. Agora não. A tecnologia nêutron incorpora-se ao Clube da Morte que distribui ainda, depois de tantos acordos de desarmamento 10.400 ogivas russas, 9.150 dos EUA, 500 da França, 450 da China e 392 do Reino Unido. Armados até os dentes e sorrindo paz para as manchetes fabricadas.
Quando no dia 5 de agosto de 1945 o presidente dos EUA, Harry S.Truman, ordenou que vinte quilotons de potência - hoje uma bombinha - devastassem Hiroshima, desencadeava-se algo mais além do impacto de 300 mil graus centígrados surgido um minuto e meio após o lançamento. Um soberano desequilibrava o planeta. Até que um dado novo mexeu em tal poderio na Guerra Fria: a explosão da bomba russa no dia 29 de agosto de 1949. Era a peleja dos machos do universo.
O meu é maior que o seu. Eu te mato três mil vezes mesmo que eu morra junto. Até o eu também tenho de Israel, Paquistão e Índia.
Não há uma corrida hoje, mas a China faz questão de dizer que tem uma bomba diferente daqueles dois processos nucleares anteriores. E ninguém deve sacar uma arma sem ter a disposição real de usá-la, diz qualquer delegado de polícia da paróquia. O blefe agora pode ficar sem controle, pois o círculo fechado dos grandes está pouco se lixando para a miséria crescente do mundo. E pobre passa a ter arma, também. A tecnologia ficou barata e virou muamba macabra. Aparatos tecnológicos nunca foram perfeitos. Observamos nos últimos dias a trágica ironia das comemorações da chegada à Lua serem empanadas pela incompetência em achar um aviãozinho no mar, do JFK Junior. Ainda há botão para ser apertado e dedos cada vez menos confiáveis. Embora ninguém resista ao amasso do Tom Cruise.
T.T CATALÃO é jornalista em Brasília





