A bola da vez
A CPI para apurar se houve o estabelecimento de um propinoduto para privatizar a Vale do Rio do Doce não vale uma nota de três reais. E a movimentação para trocar Serra por outro candidato governista para disputar a sucessão presidencial não vale então uma nota de quatro reais.
Se é assim, por quê dizem que a candidatura de Serra subiu no telhado? É que a entrada do tema Vale do Rio Doce na disputa eleitoral serviu para deixar mais claro que Serra está com problemas de estabilidade. Qualquer coisa pode fazer estragos, até uma denúncia que até agora não demonstrou nenhuma relação com o candidato. Mais uma prova que a sua candidatura é sensível e frágil por todos os lados. Até por tabela Serra sofre. As denúncias de que tucanos teriam recebido, ou teriam pedido um dinheirinho pelo trabalho feito na Vale do Rio Doce tem como alvo direto o governo, sem intermediários. Mas desgastam sem nenhum esforço extra a candidatura de José Serra.
Os amigos ajudam, dão força, tentam tirar o assunto da ordem do dia. Os mais próximos da imprensa tentam evitar o assunto nos jornais e nas televisões, mas não adianta. A candidatura precisa de um banho de descarrego feito por autoridade no assunto. Porque está tudo de cabeça para baixo.
Um dos exemplos de que os amigos estão ajudando é que as histórias dos confrontos entre tucanos estão sendo minimizadas. O presidente do PSDB, José Aníbal, com toda a delicadeza que lhe é peculiar chamou o ex-ministro das Comunicações, José Carlos Monteiro de Barros, de celerado e lingueta. Celerado todo mundo sabe o que é, a pessoa capaz de cometer crimes, malvado, facinoroso, criminoso perverso. Mas e lingueta? O que será lingueta?
Não importa. O fato é que o celerado e lingueta Mendonça de Barros, que é conhecido por não levar desaforo para casa, muito menos se intimidar com ataques verbais, dessa vez ficou quieto. Não respondeu no mesmo tom a José Aníbal. O lingueta se recolheu ao silêncio. Por outro lado, essa briga já é uma demonstração de que a casa está desarrumada. José Aníbal foi para cima de Mendonça de Barros sem ao menos lembrar que o ex-ministro da Comunicações é um dos poucos a fazer uma defesa mais elaborada, menos rasa, com melhor conteúdo da candidatura de José Serra. As relações de Mendonça de Barros com Fernando Henrique não são das melhoras. Só que essa é uma outra história. De qualquer forma, o clima está assim entre os tucanos. O que se há de fazer?
Mas a verdade é que é preciso fazer alguma coisa rapidamente porque logo, logo vem uma nova safra de pesquisas que não são otimistas para o lado do grupo governista. O pior é que não dá mais para acusar os adversários de golpistas e conspiradores. Os tucanos no início dessa campanha revelaram-se santos. Tudo acontecia em volta. Candidaturas eram dizimadas, currículos de muitos anos eram atirados no ralo, assassinatos políticos foram cometidos. Mas eles não tinham nada a ver com isso. Só mesmo a imaginação e a má fé dos adeptos das conspiratas para acusarem tucanos como responsáveis por esses golpes efetuados debaixo da mesa.
Mas o fato é que a candidatura do Planalto está em meio a séria turbulência. De um lado, pelas denúncias na Vale e de outro pela falta de empuxo para decolar. De um lado, pela dificuldades de Serra manejar o aparato do seu esquema que não é pequeno de outro porque um setor expressivo de governistas não suporta José Serra, apesar da sua mãe continuar dizendo que ele é um menino sensacional.
Como nós dizíamos no começo, apesar de todo o fuzuê, uma mudança de candidatura governista não vale uma nota falsa. E todos os envolvidos sabem disso. Ruim com Serra pior sem Serra. É claro que surpresas podem pintar por aí. Mas os substitutos de plantão imaginados para Serra têm menor poder ainda de emocionar corações e mentes. Só mesmo o PFL que anda insistindo na tecla porque não tem mais nenhuma alternativa.
FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo





