Segundo o ‘‘Aurélio’’, a bifurcação significa o ponto em que alguma coisa se divide em dois ramos. Pois bem, o MST, como qualquer movimento de caráter aparentemente reivindicatório, mas de essência ostensivamente política, está se bifurcando. Ao lado de José Rainha Jr., o incentivador das invasões de terras, surge agora o ideólogo João Pedro Stédile. O primeiro lidera por identificação, com sua imagem de homem simples, com seu linguajar que tropeça no idioma a partir de um modelo caipira. Já Stédile lidera por manipulação, na medida em que se faz obedecer sem que os que o obedecem percebam que serão capazes de segui-lo incondicionalmente. Ele faz o gênero sofisticado, intelectualizado, treinado com mais requintes. Além disso, sua figura faz lembrar um padre, o que lhe confere muita força perante as massas. Também poderia se fardar e se autodenominar comandante Stédile, o que lhe traria ainda mais sucesso entre seus comandados como sói acontecer entre os revolucionários latino-americanos, que normalmente combatem militares no poder, mas que não resistem ao charme de um uniforme cáqui ou verde-oliva. Recordemos aqui, só para ilustrar, Fidel Castro em Cuba e o ex-ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, sempre ostentando orgulhosamente suas fardas.
Por falar neles, vejamos os comentários feitos no Manual do perfeito idiota latino-americano, escrito por Carlos Alberto Montaner, Alvaro Vargas Llosa e Plinio Apuleyo de Mendoza, manual que merece ser sempre consultado para que as coisas fiquem melhor esclarecidas. Sobre os tempos de Daniel Ortega, quando dois terços da população nicaraguense eram constituídos por desempregados e subempregados, perguntam os autores: ‘‘Que foi feito dos três milhões de dólares anuais que recebeu da URSS o soberano regime sandinista? A perícia contábil destes revolucionários para administrar esse ouro foi tal que o final do governo dos Ortega os nicaraguenses tinham uma renda per capita de 380 dólares, dez vezes menos do que ... França, Alemanha, Inglaterra? Não, do que Trinidade e Tobago. E esta é uma cifra que só pode ser tomada como indício, pois a inflação de 33.000% não permite uma contabilidade demasiadamente ortodoxa’’.
Sobre a Cuba de Fidel Castro, o manual traz longas dissertações, mas tomemos apenas um pequeno trecho da interessante obra: ‘‘É duro crer que os cubanos desfrutem hoje de uma elevada cota de dignidade pessoal. É difícil pensar que aqueles, que em sua própria terra não podem entrar nos hotéis e nos cabarés, a menos que disponham de dólares, possam se sentir orgulhosos do seu governo. E é também estranha a cota de dignidade que corresponde a uma pessoa a qual não se permite ler os livros que queira, defender as idéias que deseje, ou simplesmente dizer em voz alta as coisas nas quais pensa’’.
Mas voltemos aos nossos revolucionários João Pedro Stédile e José Rainha. Pelo menos no que tange às suas declarações através dos jornais, eles têm métodos diferentes nas respectivas táticas de ascensão ao tipo de poder que almejam. Se Rainha tenta amenizar agora seu discurso, e tachar Stédile de radical por causa do seu segundo julgamento por homicídio duplo, que em breve será realizado, é coisa que fica na base de uma provável hipótese. Em todo caso, afirmou recentemente na imprensa que: ‘‘O Stédile tem outra formação, estudou no México e faz declarações infelizes. Na minha concepção, a reforma agrária não pode ficar associada ao discurso ideológico.
Entre as ‘‘declarações infelizes’’ de Stédile, que lhe estão valendo também ações na Justiça por parte do governo, consta o incitamento a invasões urbanas e a supermercados e, mais recentemente, a escolas vazias, o que é justificado em nome dos sem-terra e dos desempregados. Em última instância, é claro, Stédile não quer resolver problemas sociais, que realmente precisem ser solucionados, mas promover revolucionariamente o caos e a desordem para que depois ele e seus companheiros de ideologia façam nascer uma ‘‘nova’’ ordem, a mesma que em Cuba, na Nicarágua e em outros países da América Latina estiveram longe de atender aos anseios e necessidades daqueles para os quais os movimentos revolucionários foram postos em prática. E essa é a questão.
Portanto, a crítica aos métodos dos Stédile vinculados ao PT e a CUT, ou aos Rainha mais chegados a Força Sindical, não significa ser contra a Justiça Social que no fundo todos os brasileiros almejam, nem a defesa das oligarquias insensíveis e gananciosas que sempre existiram na América Latina. Criticar os que sob o falso manto da democracia e da Justiça, ocultam seus ideais de um totalitarismo ultrapassado, é não querer ficar na contramão da história, é desejar encarar nossos imensos desafios de forma honesta e lúcida; é deixar de lado o marxismo rançoso latino-americano, que não passa de dor de cotovelo com relação aos norte-americanos, e perceber o que deu certo e o que não deu nos sistemas liberais e democráticos desenvolvidos. Se de fato precisamos mudar muita coisa no Brasil, façamos isso pelo menos com um mínimo de inteligência.

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