Em dezembro, o censo, iniciado oficialmente no último dia 1º de agosto, deverá divulgar os primeiros dados: quantos somos, níveis de renda, escolaridade, faixas etárias da população e alguns outros indicadores sociais, que formarão um retrato real, em branco-e-preto, e sem retoques, do País em que vivemos, às vésperas do século 21 e do 3º Milênio.
O IBGE poderia ter aproveitado o censo deste ano para perguntar aos brasileiros quais são as grandes mazelas nacionais. Fica aí, portanto, a sugestão para os próximos censos, em 2005 e 2010. Não que não saibamos de antemão quais sejam (miséria, desemprego, saúde pública precária, educação falida, exclusão social e violência rural e urbana), mas apenas para permitir que os brasileiros de todos os cantos as explicitem.
Se os recenseadores do IBGE perguntassem aos brasileiros qual a origem de todas essas mazelas, com certeza, a resposta seria uma só: a corrupção. Todos sabemos, do mais rico e culto ao mais simples habitante, que ainda vive privado dos chamados ‘‘confortos’’ básicos da vida moderna (água encanada, esgoto tratado e luz elétrica), que ela é o nosso maior mal. A corrupção nos envergonha aos olhos do mundo e nos desqualifica perante nós mesmos.
A corrupção ativa, passiva, tolerada, incentivada ou dissimulada, assim como seus cínicos ‘‘subprodutos’’ – empreguismo, favorecimento, tráfico de influência, nepotismo e o famoso QI (quem indicou) –, infelizmente, permeiam a sociedade do topo da ‘‘pirâmide’’ até a base.
Frases do tipo ‘‘se eu estivesse lá, faria o mesmo’’, ouvidas com incômoda frequência, denunciam a inquietante certeza, na imaginação popular, de que o exercício do poder está indissoluvelmente ligado à prática das mais diversas formas de corrupção.
O povo se espelha nas elites e estas, como demonstra nossa história recente, em número não insignificante, costumam locupletar-se dos favores do Estado em benefício próprio. Ora, como diria Rui Barbosa, ‘‘de tanto ver triunfar as nulidades...’’, eu apenas trocaria esta última palavra por maus exemplos, ‘‘de tanto ver triunfar os maus exemplos’’, o povo acaba aderindo a eles.
Tudo isso é universal, sem dúvida. Mas, aqui, no Brasil, a sensação generalizada de impunidade agrava ainda mais as coisas.
Ultimamente, tem ocorrido razoável avanço no nível de informação e de conscientização da população em relação à corrupção aberta ou disfarçada, praticada em todos os níveis de governo, aí incluídos o Legislativo e o Judiciário. A mídia corajosamente vem cumprindo o seu papel de denunciar e, com isso, tem crescido o repúdio a tais práticas e a cobrança por atitudes capazes de reverter tal situação.
Em pouco tempo, a sociedade começará a exigir mais ética e transparência nas relações sociais. Melhor do que isso: sentir-se-á, mais do que já faz atualmente, na obrigação de dar o bom exemplo, criando condições para reverter o círculo vicioso, que tem início na miséria e ignorância de boa parte da população.
‘‘O Brasil é uma Belíndia’’, um país imaginário formado por uma minúscula Bélgica, rodeada por uma enorme Índia, costumava dizer o ex-ministro Mário Henrique Simonsen. Na época em que cunhou tal frase, a parte Bélgica estava em ritmo de expansão maior do que o da porção Índia. Após duas décadas, a situação inverteu-se totalmente. Apesar disso, e talvez como compensação para a impotência que as pessoas sentem diante de tal fenômeno, o anseio pela plena cidadania vem expandindo-se aceleradamente.
E isso é ótimo!
No dia em que a sociedade civil exigir o fim das mazelas, dos privilégios, das mordomias e, pelo menos, a diminuição drástica dos atuais níveis de corrupção, estaremos a um passo do Primeiro Mundo. O que nos separa dele, hoje, é exatamente a ‘‘epidemia’’ de corrupção, o ‘‘festival’’ de obras inacabadas em todos os cantos do País, o desperdício do dinheiro público e o sentimento real de impunidade.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).
E-mail: [email protected]

mockup