A beleza que os olhos já não veem
Mais do que um esforço de preservação visual, manter a cidade limpa é também um exercício de cidadania
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quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Mais do que um esforço de preservação visual, manter a cidade limpa é também um exercício de cidadania
Ary Sudan 

Em uma conversa recente com um amigo que está trabalhando fora de Londrina, comentamos sobre a cidade onde ele tem passado os últimos dias a trabalho.
Eu lembrava daquele lugar como uma cidade charmosa, com um certo apelo visual, arborizada e organizada. Perguntei se ainda mantinha essa beleza. Ele, com um certo desânimo na voz, respondeu que não.
Segundo ele, a cidade estava irreconhecível. A paisagem urbana fora tomada por uma poluição visual desenfreada: placas comerciais de todos os tamanhos e cores disputando a atenção de quem passa, uma sobrepondo a outra, cada comerciante tentando ser mais chamativo que o vizinho.
A cena descrita lembrava uma espécie de competição informal — um colocava uma placa de dois metros, o outro de três, depois outro de cinco —, todas de gosto duvidoso, sem qualquer preocupação com harmonia ou estética urbana. O resultado era um ambiente visualmente agressivo, caótico e que apagava a beleza original do lugar. “É bem diferente de Londrina”, ele comentou. “Aqui é tudo mais limpo, mais organizado,” E, foi aí que, me peguei refletindo.
De fato, Londrina também já foi assim. Quem vive aqui há mais tempo, certamente, se recorda de algumas regiões da cidade que mais pareciam um mercado informal a céu aberto. Placas tortas, cores gritantes, calçadas invadidas por estruturas improvisadas — um cenário que, por muito tempo, foi aceito como normal. Lembro de alguns trechos que se assemelhavam à faixa comercial do Paraguai, na divisa com Foz do Iguaçu: visualmente confusos e esteticamente desgastantes.
Mas Londrina passou por uma transformação importante. Foi um processo difícil, cercado de resistência e críticas, como costumam ser todas as mudanças estruturais profundas. Regras mais rígidas foram implementadas, campanhas de conscientização promovidas e, aos poucos, a cidade foi ganhando uma nova cara. Hoje, somos referência em urbanismo e limpeza visual para outras cidades brasileiras.
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O curioso é que, uma vez conquistada essa nova paisagem urbana, ela passa a ser naturalizada. Nossos olhos se acostumam com a ordem, com a beleza, com o silêncio visual — e deixamos de perceber o quanto isso nos faz bem. Esquecemos rapidamente do antes, e começamos a tomar o agora como garantido.
Esse fenômeno é mais comum do que parece. Psicólogos chamam isso de “adaptação hedônica”: a tendência humana de se acostumar com melhorias e deixá-las de lado emocionalmente, como se fossem normais. A praça reformada vira apenas um ponto de passagem. A rua arborizada, um caminho qualquer. A cidade limpa, um cenário sem novidade.
Por isso, de tempos em tempos, é preciso olhar Londrina com os olhos de quem chega pela primeira vez. Só assim conseguimos enxergar o quanto evoluímos. Não para nos acomodarmos, mas para reconhecermos o valor do que temos. Porque sim, vez ou outra aparecem propostas para retroceder, para “flexibilizar” regras em nome de uma suposta modernização comercial. Mas renunciar à estética urbana é abrir mão de qualidade de vida.
Mais do que um esforço de preservação visual, manter a cidade limpa é também um exercício de cidadania. Não importa quem fez, quem começou, ou quem assinou os decretos. O que importa é que foi feito — e que deve ser mantido. Essa é uma conquista coletiva que merece ser defendida.
Londrina, com ruas limpas e fachadas harmonizadas, é mais bonita do que muitos de nós conseguimos perceber no dia a dia. Isso porque nossos olhos já se acostumaram. Mas para quem vem de fora, a beleza salta aos olhos. E isso é um lembrete: às vezes, é preciso parar e olhar de novo. Olhar com atenção, com frescor, com gratidão.
A cidade onde moramos é, sim, uma cidade abençoada. E cabe a nós continuar cuidando dela para que os olhos que chegam — e os que já estão aqui — possam sempre se encantar.
Ary Sudan é empresário em Londrina





