A bela comunidade do campus
As tarefas acadêmicas, a paixão pelos livros e a alegria por materializar em texto ideias e inquietações reúnem-se em mim como essência da vida. As artes da palavra, portanto, me estimulam bastante.
Confesso, contudo, que redigir este artigo foi muito difícil. Causa-me indignação, neste sinuoso início de milênio, que argumentos razoáveis sejam uma predisposição alheia a tantos indivíduos. Quando essa condição mínima para a coexistência se verifica em profissionais de comunicação, a indignação se converte em frustração.
Em respeito aos leitores inteligentes da FOLHA, escrevo este contraponto a alusões descabidas que têm sido veiculadas em coluna específica. Não vou citar o autor dos descalabros para que o mal-estar de suas palavras não invada o mundo dos que ora me leem e insistem na leitura de periódicos na esperança de encontrar compromisso com o espírito republicano e os sentimentos democráticos. Ademais, não intuo me posicionar contra tal jornalista, posto que ele mesmo vive afirmando que nós, das ciências humanas, somos todos "esquerdistas psicopatas", "criminosos", "totalitários", etc. Nesses termos, não há interlocução possível. Para quem se diz conhecedor da verdade e do modo como os outros pensam, toda palavra proferida é perda de tempo. Prefiro, então, usar este espaço para falar do curso de Ciências Sociais da UEL, com o qual minha vida se mistura.
Fui aluno e hoje sou professor da UEL. Graças à comunidade de Ciências Sociais, tenho convivido com vasta diversidade de ideias e visões de mundo. Tenho amigos liberais e socialistas, conservadores e progressistas, de direta e de esquerda. Estudo autores brasileiros e estrangeiros filiados a muitas ideologias e escolas de pensamento. Aprendo com todos eles e, aos poucos, respeitando meu tempo de entendimento e maturidade, vou moldando meu próprio jeito de pensar e agir. À esquerda, espaço do espectro político-ideológico em que creio me situar, conheço muita gente diferente entre si. Aliás, foi na UEL, no espaço das ciências humanas, que aprendi ser a realidade algo sempre plural, nunca singular. Aqueles que amesquinham o pensamento, uniformizam complexidades e reduzem a trama da vida a lugares-comuns que só servem para animar plateias já convertidas não são dignos do ofício de informar. Max Weber, sociólogo decisivo para compreender a sociedade moderna, diria que esse tipo de gente não tem vocação nem ética.
Sinto-me orgulhoso por conviver há tanto tempo com pessoas dedicadas e competentes, que enfrentam inúmeras dificuldades num universo de trabalho carente de recursos e, mesmo assim, não desistem de lutar pela qualidade e pela gratuidade da educação pública. É motivo de honra para mim compor um grupo de gente inspirada e corajosa, que põe no horizonte os direitos de todos, a cidadania de cada um, um futuro justo e bonito para nossos filhos e netos. Tenha certeza, caro leitor, que os professores de Sociologia que a UEL formou no decurso de tantos anos e hoje trabalham na rede pública e particular de ensino médio abraçam com decência, sensibilidade e muito profissionalismo toda a comunidade londrinense.
Em seus mais de quarenta anos, o curso de Ciências Sociais da UEL laureou professores e pesquisadores que lutaram contra a ditadura civil-militar, pela redemocratização, em favor da ampliação das liberdades civis e políticas, em comunhão com a defesa das mais potentes questões sociais do nosso tempo. Na diversidade que articula sua unidade, a comunidade de Ciências Sociais vem registrando em Londrina, no Paraná, no Brasil e em diversas partes do mundo a história de um curso que é referência na área de Ciências Humanas e sempre esteve associado a elevados critérios de qualidade e excelência.
No lugar do ódio que impregna a crônica política e do palavrório pobre e maldizente, sugiro aos ressentidos e obcecados um pouco daquilo que se lê nos livros santos e também na biografia dos maiores lutadores da liberdade: mais amor, por favor.
MARCO ANTONIO ROSSI é professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina
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