A batalha pelos olhos que sofrem só está no início - Renzo Sansoni
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de julho de 1998
Renzo Sansoni 
Enquanto você estiver lendo estas linhas, uma pessoa, em qualquer parte do Brasil, estará ficando cega. As causas da cegueira são muitas, englobando acidentes, diabetes, uso errado de colírios, glaucoma, catarata, parasitoses, hipertensão arterial (pressão alta), uso abusivo de álcool e cigarro, tumores, inflamação, carência alimentar etc. São milhares e milhares de cegos e infortunados por este Brasil afora. São milhares de enfermos entregues ao mundo das trevas, supliciados e impotentes, num mar de angústia e de pouca resignação.
Muitos casos são fatais, permanecendo a medicina nanica e anêmica perante eles: simplesmente não há o que fazer para recuperar-lhes a visão. No lado bom do problema, muitos e muitos casos de cegueira podem ser recuperados. Principalmente quando a causa da cegueira estiver na córnea. Nestes pacientes, a ciência médica está triunfando bem sobre a doença, através do decisivo e miraculoso/fantástico transplante da córnea.
Num trabalho de quase anonimato, já foram realizados milhares e milhares de transplantes de córnea em nosso país, com esmagadora eficiência e vitória nos resultados. Pontinha de curiosidade: com poucos holofotes e ti-ti-ti da imprensa e do agito. Pela importância e repercussão do tema, foram criados vários bancos de olhos em todo o território nacional, visando organizar e dar consistência médica nesta cruzada de tamanha importância para a sociedade brasileira: a cegueira curável e reversível. Objetivo: recuperar aqueles pacientes passíveis de cura cirúrgica.
Em sintonia com os maiores centros oftalmológicos do mundo, o Brasil é um exemplo fortíssimo do como fazer bem feito no combate à cegueira por lesões na córnea, merecendo elogios e aplausos da comunidade médica internacional. Porém (sempre há o porém, para acinzentar nosso otimismo) um grande obstáculo ainda segura nosso país: o número de doações de olhos é muito pequeno - apesar da boa lei que temos, e do grande coração latino e romântico da gente brasileira.
Muitas famílias não permitem a doação das córneas de seus entes queridos. Mesmo com os mais racionais e razoáveis argumentos das equipes de banco de olhos. Não chega a ser uma tragédia, mas é uma situação que necessita, muito e muito, ser mudada para melhor, pois que a solidariedade para com o próximo deve falar mais alto do que nossa emoção pela perda de um familiar.
A batalha pelos olhos que sofrem, na busca obstinada da cura da visão, está apenas começando.
- RENZO SANSONI é médico oftalmologista em Uberlândia (MG)
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