Numa autêntica operação de guerra, a Polícia Militar mobilizou na noite de terça-feira mais de 500 viaturas, entre camburões, ônibus, motocicletas, brucutus (à espreita) e ambulâncias. Havia lá certamente mais de mil soldados, incluindo tropa de choque. Ninguém me contou, eu vi! Cheguei com um pouco de atraso ao ‘‘teatro de operações’’, quando a tropa do Iguaçu já havia ocupado uma área de cinco mil metros quadrados ao redor do quartel-geral, principal bastião de resistência ao inimigo. Mas fui testemunha ocular.
Desde os tempos da Upes, quando ocupávamos as ruas de Curitiba para protestar contra o imperialismo ianque, desde a época do MDB, em que íamos às praças resistir à ditadura militar ou para pedir Diretas Já! não senti em meu peito tamanha indignação.
Um governo inconsequente, autoritário e covarde perpetrou contra si mesmo o golpe naquilo que poderia restar de dignidade.
Com armas pesadas – pistolas, escopetas, metralhadoras, fuzis e bombas de gás lacrimogêneo – os soldados cercaram e afastaram 30 mulheres desarmadas. Ao diálogo, preferiram a baioneta calada. Ao cumprimento das promessas eleitorais, optaram por cassetetes e escudos. Para combater a justa causa das mulheres dos policiais militares, planejaram e executaram uma operação militar, que previu até o fechamento dos flancos inimigos das inimigas entrincheiradas em barracas de lona preta, fortemente armadas com...colchonetes e bules de café. Até bloquearam as brechas para evitar uma contra-ofensiva inimiga.
Brilhante a estratégia dos generais do Palácio Iguaçu: três horas depois, o inimigo foi desalojado. Para que o solerte adversário não se reagrupasse, o front foi ocupado durante toda a noite. Na manhã chuvosa de quarta-feira, o vencedor permanecia intrépido e alerta.
Pobres soldados da PM, obrigados por hierarquia e dever de ofício a tomar parte em tamanha ignomínia. Fica na retina a imagem das policias femininas, que derramavam lágrimas de dor e vergonha enquanto cumpriam as ordens dos entrincheirados ocupantes do Palácio Iguaçu. Covardes palacianos, que mandaram colocar na frente das tropas as policiais. Cada lágrima que eu vi, nos olhos da tropa feminina, será no futuro o resgate desse momento vergonhoso.
Jaime Lerner, Rafael Greca e Alceni Guerra vibravam, por certo, pelo retorno às suas origens, pelo uso da força escudada no autoritarismo e até mesmo no legalismo de uma decisão judicial. Nada mais legal que o AI-5. Nada mais judicial que o fechamento do Congresso, a extinção dos partidos, as prisões, a tortura, os desaparecimentos etc.
Na terça, havia sim uma decisão judicial, mas não uma decisão policial. Afinal, a ordem foi cumprida por um meirinho? As mulheres foram intimadas por um oficial de Justiça? Quão legal foi o cumprimento da decisão judicial?
Esse governo está no fim, passará. Ficarão as imagens das mulheres, como ficou a imagem do estudante desafiando o tanque na Praça da Paz Celestial, a foto de bravura na Primavera de Praga, como ficou a foto do Edson Jansen mostrando a carga de cavalaria em cima da juventude inconformada.
Jaime Lerner passará, como governador medíocre, ora escondido no palácio, ora fazendo negócios mundo afora. Mas ficará a Polícia Militar, instituição secular e permanente que, em dado momento, chorou a lágrima sentida pelo dever no cumprimento da inglória tarefa.
Se Lerner e seus generais de plantão sonhavam em passar à história como Júlio César conquistando a Gália, ou Otávio, na Batalha de Actium, cometeram erro fatal, pois é certo que a posteridade haverá de comparar a batalha do Rebouças à vitoria de Pirro.
- AMADEU GEARA é advogado em Curitiba

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