A barbárie do Brasil bandido - Gaudêncio Torquato
A barbárie do Brasil bandido
Gaudêncio Torquato
Antes do leitor terminar de ler este parágrafo, dois cidadãos estarão tombando ou sendo assaltados, nos vastos espaços do território nacional, vítimas da bandidagem. De cinco doentes que baixam nos hospitais brasileiros, pelo menos um é vítima de uma guerra civil que mata por ano quase 41 mil brasileiros, três vezes mais que nos Estados Unidos, mais gente que os mortos em conflitos étnicos, como o da Iugoslávia. Em 20 anos, o número de vítimas chega aos 820 mil, bem mais que os 750 mil vitimados durante todo o período colonial da guerra de Angola.
O outro ângulo da violência é o do empobrecimento do País. O rombo da Previdência tem a colaboração do cano assassino que aleija multidões, alarga fila de hospitais, multiplica pensões de viúvas e devasta 10% do PIB, ou seja, R$ 84 bilhões, dinheiro que poderia estar sendo investido em hospitais, escolas, habitação, transportes, agricultura.
O quadro é aterrador: bandidos assaltando, sequestrando, matando pessoas; chacinas explodindo nos finais de semana; policiais matando bandidos; bandidos matando policiais; policiais matando policiais; bandidos roubando o dinheiro de companheiros presos; motins nos cárceres apinhados; estupros e mortes violentas cometidas pela mais fria estupidez.
Nas prisões-depósito, feitas para abrigar 107 mil presos, cerca de 196 mil presos germinam novas formas de violência, enquanto as gavetas se entopem com 240 mil mandados de prisão, envolvendo, no mínimo, 100 mil bandidos soltos nas ruas, 40 mil só em São Paulo, onde só este ano ocorreram oito rebeliões em penitenciárias com 21 mortes e 10 rebeliões nas superlotadas delegacias e cadeias públicas.
Um clima de insegurança e medo só mesmo comparável aos descritos nos filmes de ficção científica, onde robôs armados até os dentes, com todo o aparato tecnológico, não conseguem desbaratar quadrilhas mancomunadas com a Polícia, conter o ímpeto de galeras enfurecidas ou o arrojo de súcias de pichadores, aprisionar ladrões, estupradores e a corja de malandros que instalaram no Brasil um dos maiores estados da violência permanente do mundo.
São Paulo vive o mais tormentoso clima de sua existência. O Carandiru, com seus 7 mil presos, encravado no centro da capital, é o símbolo da degradação humana, e Diadema, com seu índice assustador de 140,4 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes, o maior barril de pólvora do País.
A brutalidade jorra em proporção geométrica e as paliativas soluções governamentais melhoria e ampliação do sistema penitenciário, reforço e reaparelhamento das Polícias estão longe de um crescimento em proporção aritmética. Os cinturões metropolitanos, já saturados de lixões que ofertam um banquete pantagruélico para urubus, crianças e mães famintas, são também palco para a exibição de corpos chacinados em decomposição, vítimas do maior ciclo de violência do Brasil contemporâneo. Trata-se, no fundo, da projeção da sombra do FMI sobre o País, com seu rígido programa monetário e escandaloso custo social.
Milhares de bandidos circulam entre nós, todos os dias, mas não são presos porque não há lugar para abrigá-los. Entre 100 mil e 120 mil novas vagas nas penitenciárias é que o Brasil precisa. Mas os governantes não sentem a angústia das famílias. Órgãos estatais, como o Conselho Penitenciário, lêem os diagnósticos mas arquivam as soluções, engessando o sistema prisional entre as paredes frias da burocracia. O combate à violência, tema prioritário dos programas eleitorais, é a mais recorrente promessa não cumprida.
O Brasil, é triste, está se tornando um dos maiores assassinos da humanidade. Pior: a violência, de tão desalmada, está matando a vontade do povo. Sem ânimo, emoções envenenadas pelo vírus da angústia, os cidadãos entram no limbo catatônico, assemelhando-se a dândis em passeio macabro e estonteante por um jardim de horrores. A violência suga a vitamina da vida, a alegria de viver.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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