"… é para com esta verdadeira fonte e origem da Revolução – a prontidão do povo em tomar armas – que os historiadores da Revolução ainda não fizeram justiça – a justiça a elas devida pela história da civilização" - Piotr Kropotkin, "A Grande Revolução Francesa".

A grandiosidade de um fenômeno para a história de uma sociedade não está, certamente, nas mãos daqueles que, durante o curso deste fenômeno, ocupam as posições sociais mais elevadas, de prestígio ou de autoridades oficiais.

Não quer dizer que, como bem lembra Kropotkin, o grandioso não possa cair no esquecimento, no oblívio da sociedade, e o medíocre ganhe os louros da história oficial. Assim começo minha leitura sobre o movimento dos estudantes pela educação. É sob o desejo de fazer justiça à verdadeira fonte e origem da mudança social que observo a ocupação das escolas e como isso reverbera em todos nós, sociedade brasileira.

A fala da estudante Ana Júlia Pires Ribeiro expressa algo que vai muito além da querela hoje instalada entre a esquerda e a direita brasileiras. Uma querela que, se formos lhe conceder alguma dignidade, caracterizaríamos de monótona. Sabe-se que há entidades atreladas a partidos políticos de esquerda que transitam nas escolas, nas manifestações e entidades representativas, fazendo-se ouvir e tentando mobilizar estudantes segundo suas perspectivas. A direita, aparentemente, não tem interesse em movimentos de base, prefere falar de palanques, púlpitos e pedestais. Mas Ana Júlia disse a todos: "A nossa bandeira é a educação. A nossa única bandeira é a educação. Nós somos um movimento apartidário". Ela revela uma profunda verdade deste movimento e que poucos têm entendido e interpretado. Preferem instrumentalizar, aparelhar, tergiversar ou acusar.

Mas que maior legitimidade pode ter a fala de uma estudante de 16 anos sobre o quanto lhe é cara a educação e que é por ela, e somente ela, que eles lutam?

Nossa política anda perdendo brio, capacidade, ideais, enfim, anda perdendo-se. Política não é meramente tolerância. Política não é fazer acordos onde todos cedem, pois interesses são irreconciliáveis em última instância. Política é nosso verdadeiro ato de criação. É o domínio em que tentamos assumir a história nas nossas próprias mãos, entendendo o presente e moldando o futuro. Não há outra esfera em que a capacidade humana possa se expressar tão plena e mundanamente como a política. E muitos brasileiros hoje só querem calá-la, dando voz aos interesses até o Estado catapultados.

O debate público está senil. Por um lado, acusam esses estudantes de serem massa de manobra de uma esquerda corrupta. Do mesmo lado, dizem querer uma escola sem partido. Sugiro a esses que tomem lições com a colega Ana Júlia, pois esta soube expressar séria e inteligentemente o que é apartidarismo, quando e em que circunstância o termo cabe. De outro lado, há os que veem aí a oportunidade de defender o deposto governo petista, pois temem pelos seus salários, ofuscando toda a verve de Ana Júlia e daqueles por quem ela discursou. Muitos, deste lado, erguida a discussão sobre a reforma do ensino médio, não hesitaram em considerar os jovens incapazes de realizar escolhas, definir seus interesses, estabelecer seus objetivos.

Mas por que a história da civilização não se faz somente pelos senis, estão esses jovens aí, estufando o peito, tomando suas armas. Rompem limites e demonstram que não se alcança a maioridade com a tutela de quem quer que seja.

Resta saber que parte da sociedade será capaz de dar forma e finalidade a esses anseios mais intestinos pela educação, que são os da sociedade em geral. Hoje estamos atônitos, imóveis, pois a política tornou-se o que aí está e não faz justiça à fonte e origem das verdadeiras revoluções.

DANIEL GUERRINI é professor do departamento de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus de Londrina

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