Havia bandidos dentro da Câmara Municipal de São Paulo. Mas havia bandidos também do lado de fora. E no fundo eles são todos iguais. Os que estão dentro da Câmara cometem crimes de extorsão, de desvio de dinheiro, de chantagem. Os de fora matam inocentes com cinco balas na cabeça. E tudo acontece no mesmo momento porque a bandidagem que está dentro do prédio é consequência da que está fora e vice-versa.
São Paulo é o laboratório dos tempos sombrios. Onde aflora com toda a crueza aquilo que já estava anunciado para acontecer. Aquilo que vai acontecer, o que já está acontecendo por causa da ganância, da leniência, da desconsideração com o que é público, do poder sem limites, da falta de generosidade, da lei do mais forte.
E ninguém mais fica chocado. A banalização do inusitado já criou uma armadura no cidadão comum, uma espécie de defesa para que ele não entre em parafuso. A história do assassinato do corretor de seguros ao lado da Câmara Municipal, quando estavam sendo ouvidos os implicados na máfia das propinas que mergulhou a prefeitura em um mar de lama, não sensibiliza mais ninguém. Como não assustam mais as notícias de jovens abatidos nas portas das escolas, de pessoas mortas nos cruzamentos por causa de um relógio.
Aí começam a aparecer os donos da luta contra a violência. As campanhas que exigem das pessoas um bom comportamento. Os que se vestem de branco e pensam que estão ajudando a fazer um mundo melhor. Aqueles fazem correntes de oração para afastar as influências negativas. Muitos acreditam, mas é preciso desconfiar desse tipo de manifestação porque a violência é estrutural como também é a corrupção. Violência e corrupção estão inseridas sub-repticiamente no universo político, cultural, educacional, enfim, no universo social de um país que sofre uma crise de valores pendentes.
As forças do mercado, a luta incessante pelo lucro, são as criadoras dos limites, ou melhor, afrouxam esses limites. Um exemplo disso é o esfacelamento do espaço urbano de São Paulo. As pessoas têm subempregos, vivem em sub-moradias, têm transportes subumanos e convivem com hiperssistemas de segurança privados, com a ostentação da riqueza e principalmente com a falta de solidariedade do vencedor com o vencido.
A cidade está deteriorada em todos os níveis. No político já se fala abertamente no impeachment do prefeito Celso Pitta, que está sendo passado para trás pelo inventor, Paulo Maluf, que também anda às voltas com denúncias cuja baixeza não consegue ultrapassar o rodapé. A cada dia surge uma novidade sobre como funcionava a administração de São Paulo, lubrificada por gordas propinas, ameaças de morte, comissões milionárias, tudo feito com as melhores das intenções.
Nas ruas, além dos assaltos, dos engarrafamentos de centenas de quilômetros, há propaganda. Nas grandes avenidas não existem mais prédios, paisagem urbana é só propaganda. Enormes luminosos, uns sobre os outros, mandando comprar, mandando consumir ao máximo, se endividar até às tampas que depois o banco tal resolve através de juros escorchantes, é claro.
De fato, São Paulo é o laboratório desses tempos sombrios que se avizinham. Do que poderia ter sido e não é - das coisas inacabadas.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo.

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