A balança comercial do agronegócio
Segundo análise de Luiz Antonio Fayet, ''além da importância pelos superávites gerados, o agronegócio tem representado ao longo de muitos anos a grande fonte de divisas para sustentar as necessidades de importação do País e reduzir a dependência financeira externa, particularmente pela sua baixa demanda de insumos importados (relação em torno de 5 : 1).
No período 1997 a 2002, o agronegócio acumulou 97,4 bilhões de dólares de saldo de divisas, enquanto a balança comercial total do Brasil apresentou um déficit da ordem de 0,3 bilhão de dólares. A importância dos saldos comerciais do agronegócio equivale ao ar que respira a economia brasileira e suas combalidas contas externas.
Contudo, se por um lado nosso agronegócio é tão competitivo e conta com mercados promissores, por outro sofre grandes ameaças que periodicamente provocam grandes revezes e consequentes prejuízos, desestruturando a economia e a vida de dezenas de milhões de brasileiros, nos campos, nos portos, nas estradas e nas cidades.
Nos últimos 10 anos, nossas maiores ameaças têm sido:
política cambial tornando periodicamente o dólar artificialmente baixo, como atualmente, funciona como um desacelerador do movimento de exportação e como um subsídio à importação. Este foi o fator que mais lesionou o agronegócio e toda a economia brasileira, inviabilizando uma infinidade de negócios e de seus empregos, provocando a instabilidade no campo e a marginalização nas periferias das cidades. Para confirmar, fiquemos atentos sobre o que se passará com o milho e o trigo no corrente ano, ou, até mesmo, com a renda setorial rural.
tributação o violento crescimento da tributação, que passou de 23% do PIB em 1994 para mais de 35% em 2002, além de sua cobrança em cascata e incidindo nas planilhas de custos dos produtos exportados, têm reduzido fortemente nossa capacidade competitiva.
logística de transportes as fragilidades dos sistemas disponíveis e os seus custos relativos, também conspiram contra nossa competitividade, especialmente no segmento ferroviário cujas deficiências estão onerando toda a matriz em nosso Estado, fato já denunciado às autoridades federais, mas sem nenhuma providência até o momento.
custos financeiros por repercutirem na matriz macroeconômica do País, refletem-se nas planilhas de custos de nossos produtos. Este fato tem sido determinante no carregamento de estoques reguladores, pois enquanto nos países ricos o carregamento de estoques é feito com juros nulos ou subsidiados, nossas taxas beiram na média entre 40% e 50% ao ano, dificultando contratos de longo prazo, tanto para o mercado interno quanto para exportação.
Concorrência desleal quotas, subsídios, barreiras sanitárias inventadas e outros fatores, também prejudicam nossa capacidade de ocupação de fatias crescentes do mercado internacional. Em 1999 a soma dos subsídios concedidos pelos países ricos à sua produção rural, atingiu perto de 370 bilhões de dólares, correspondente a aproximadamente 75% do PIB brasileiro. Sufocante. Mas mesmo assim crescemos e vamos crescer mais.
Se não nos atrapalharem muito, especialmente com as políticas internas inadequadas e inconsistentes, poderemos chegar a ampliar a oferta de produtos de exportação na ordem de 50 milhões de toneladas até 2010, e mais, com um valor médio por tonelada crescente. Neste quadro, as expectativas para o sistema Antonina/Paranaguá têm um potencial de atingir um acréscimo na casa dos 5 milhões de toneladas.
Para mera comparação de grandeza, transitou pelo sistema portuário paranaense cerca de 28 milhões de toneladas em 2002 (exportação e importação), carga equivalente à capacidade de transporte de um milhão de carretas, que enfileiradas cobririam uma distância estimada do contorno do território brasileiro e mais dessa distância.
Estes dados singelos dão uma dimensão clara da responsabilidade dos governantes, dos políticos, dos trabalhadores, dos operadores, dos gestores públicos e privados e de outros tantos que interferem nos sistemas de transportes, pois aumentar a produção, a produtividade e a ocupação dos mercados internacionais é o caminho mais seguro para garantir a estabilidade no campo e nas cidades, combater o martírio do desemprego e atingir a fome zero.
O agronegócio paranaense, representado pela Faep e Ocepar, considera que para a melhoria do setor de transportes no Estado, precisamos dentre o universo de necessidades, tratar urgentemente da seguinte agenda:
1) ampliar a rastreabilidade, segregação e garantia de qualidade dos produtos;
2) criar uma 'agência de controle social' para o setor, no âmbito estadual;
3) criar 'conselhos regionais de usuários' para cada modal de transporte;
4) fortalecer o Conselho da Autoridade Portuária (CAP) de Antonina/Paranaguá, como fórum de convergência portuária;
5) criar um coordenação dos agente públicos que operam na área portuária, para acelerar os trâmites;
6) melhorar a gestão dos investimentos portuários sustentados pelos 'fundos privados', especialmente para dragagem e reequipamento;
7) reformulação da política nacional de navegação de cabotagem;
8) regulamentação urgente do direito de passagem no sistema ferroviário e;
9) regulamentação pelo governo federal da CIDE como fonte de recursos para a implantação de infra-estrutura de transportes, ou a revogação de sua cobrança com a consequente desoneração dos custos de transportes.
Se falharmos na tarefa de reformulação da política econômica e na adequação do setor de transportes, o interior do Brasil entrará em colapso e estaremos no caminho da convulsão social, que aliás já começamos a trilhar. Contudo, tendo como foco consumidores e usuários, garantindo a competitividade e a qualidade de nossos produtos, já duramente conquistadas da porteira para dentro, todos seremos vencedores.''





