Mal curada a ressaca da festa - e, depois da comemoração prévia, a decepção póstuma - provocada pelo sonho frustrado de trazer a Olímpiada de 2004 para o Rio de Janeiro, sobraram, como sói ocorrer no Brasil, muitos ressentimentos e poucas lições. Convém esquecer aqueles, provocados pelo bairrismo limitado e pueril ou pela inveja, e tentar tirar algum proveito destas.
A primeira pergunta é: por que todos nós acreditamos que a vitória ‘‘estava no papo’’ e terminamos perdendo? Comemorar a postura do ovo antes que ele se realize é um velho hábito nacional. O Rio de Janeiro mesmo foi o palco do mais famoso e doloroso de todos - e também no campo dos esportes, setor no qual festejamos a maior parte de nossos triunfos. Afinal, foi no Maracanã que o mulato uruguaio Obdúlio Varela liquefez nosso ufanismo no mais profundo silêncio de que já houve notícia nos tempos modernos.
Pois bem, a ‘‘Copa do Mundo não foi nossa em 50’’ ainda não foi digerida nem entendemos o malogro de Sarriá em 1982, mas cá estamos nós de novo expiando a vitória escapada em Lausanne. Perdemos porque, como quaisquer seres humanos, temos grande dificuldade de enxergar nossos próprios defeitos. Os estrangeiros do Comitê Olímpico Internacional vieram ao Rio e não conseguimos esconder atrás das bundas volumosas das mulatas, os buracos e o lixo das ruas, as águas podres da bela Baía da Guanabara, o inferno em forma de congestionamento toda hora do tráfego urbano, as balas perdidas de nossas fábricas de órfãos e o desmazelo de uma telefonia muda.
Aí é possível algum leitor do conde Afonso Celso assomar à sala para nos garantir que tratamos de especialidades cariocas. Bobagem! Em matéria de ruas esburacadas e sujas, as de antiga Cidade Maravilhosa podem chegar no máximo ao segundo posto no pódio - a maior metrópole do país, São Paulo de Piratininga, merece, com toda desonra, a medalha de ouro.
Se houvesse semelhante competição na modalidade congestionamento, a classificação seria idêntica. Com enchente ou sem enchete, no inverno ou no verão, poucas são as cidades do mundo que jogam tanto tempo inútil no lixo quanto esta Paulicéia dos desvarios de Mário de Andrade. Impossível imaginar pior despedício: o homem preso no engarrafamento é ocioso, impaciente, inútil e candidato fácil ao infarto. O trânsito de nossas metrópoles é um vômito permanente de monóxido de carbono e das riquezas que milhões de brasileiros deixam de produzir.
Quanto à violência, já houve um bate-boca entre os secretários de Segurança de São Paulo e do Rio e nenhum deles foi convincente. Ou melhor, os dois foram: as duas áreas metropolitanas podem se envergonhar de recordes de violência urbana incomuns. É verdade que a situação da telefonia do Rio é poior do que a de São Paulo, mas quem já tentou falar de um telefone celular na hora do almoço nos Jardins sabe que não pode cantar muita vantagem.
A questão da poluição da Baía da Guanabara traz à baila outro problema: o da incúria administrativa quanto à manipulação do Erário. Há pouco mais de dois anos, o BID e os japoneses liberaram US$ 200 milhões para financiar um projeto de limpeza de nosso mais lindo cartão postal (para o total, seriam necessários US$ 800 milhões). Cadê o dinheiro? Ninguém sabe, ninguém viu. Como ninguém pode justificar o uso das verbas também milionárias enterradas nas areias que paralisam as águas imundas do rio Tietê.
Acima foram citados exemplos paulistanos. Não faltariam dados semelhantes, se a cidade que se candidatasse a sediar os jogos fosse Curitiba, Manaus, Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza ou Salvador. Trata-se de um mal nacional. Andamos muito felizes com o governo, a estabilização da economia é uma conquista a ser festejada, mas a qualidade de vida de nossas cidades está abaixo da crítica mais generosa. Não percebemos isso muito bem. Mas vieram uns estrangeiros com pranchetas à mão e nos contaram isso.
Está na hora de cuidar do assunto. Pois o real só se manterá forte e estável se a economia crescer de forma auto-sustentada, ou seja, se houver investimentos. E vai ser difícil convencer alguém a investir em cidades com infra-estrutura do nível da oferecida pelas nossas. A Olímpiada continua sendo uma utopia distante. Infelizmente, a bala perdida é nossa realidade mais próxima. É esta bala que mata o sonho.

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