Lavar as mãos antes das refeições. Verificar a procedência dos alimentos. Usar copos limpos. Nas relações sexuais, utilizar a camisinha. Quem nunca ouviu os conceitos básicos sobre higiene? Então, por que há a disseminação de bactérias, fungos e vírus, em pleno século 21? Em entrevista à FOLHA, o médico infectologista Jan Walter Stegmann fala sobre os riscos, os cuidados e, principalmente, a conscientização do brasileiro em relação ao assunto.

Doutor, somos um mundo de micróbios?
Sim. Para cada célula viva, temos dez microorganismos, então, nós somos um mundo de micróbios. Os micróbios, que são as bactérias, fungos, estão disseminados na natureza. Os vírus não porque são organismos intracelulares, isto é, precisam de uma célula para viver. Mas bactérias, fungos, protozoários, helmintos, que são as verminoses, estão espalhados na natureza.

E o risco de contaminação pelas bactérias? Devemos soar o alarme? Está tudo podre?
Não é bem assim. O risco dessa contaminação é o mesmo que temos de ser atropelados ou do avião que embarcarmos cair. Na zona rural, há a probabilidade de se aspirar um fungo que pode causar a blastomicose. Quem vai a cavernas que tem morcegos, corre um risco maior de aspirar o fungo que vai causar a histoplasmose. Então, existe uma epidemiologia das infecções. Alguns lugares são mais propícios. Tudo depende da suscetibilidade e da quantidade de microorganismos que constituem o inócuo para dar início à infecção.

Quem está mais suscetível às infecções?

Os extremos das idades. Essa imunidade é diminuída nesses extremos. Então, os jovens e idosos, com certeza.

E como pode se dar essa contaminação?
Muitas vezes, você pode se contaminar, por exemplo, com os fungos, através da inalação dos conídeos, que são a forma transmissível do fungo. A bactéria, por exemplo, se o indivíduo tem tuberculose, quando ele tosse, pode eliminar a microbactéria através da secreção pulmonar aerossolisada, que são substâncias minúsculas que podem ficar um pouco na natureza, serem inaladas e gerarem a contaminação. Eventualmente, vírus da Hepatite B podem ficar alguns dias no ambiente. Por isso que você tem transmissão familiar da Hepatite B.

E em relação à questão sazonal? O verão é tempo de alerta?

Epidemiologicamente, algumas infecções têm um período maior de transmissibilidade. Enquanto as viroses respiratórias são mais frequentes no inverno, no verão as pessoas têm mais contato com a água, isto é, podem se contaminar por doenças disseminadas pela água, como a salmonelose.

Como médico, em se tratando de infecção, qual a melhor dica? Vacinar é o caminho?

Exatamente. A infecção depende do microorganismo e de nossa imunidade. A melhor prevenção é obter a imunidade. Essa imunidade vem através das vacinas.

E em relação aos hábitos, o ''trivial'' continua valendo? Quais suas dicas?

Sim. Devemos tomar cuidado com a água que tomamos, limpar bem os medicamentos, lavar a mão antes das refeições, utilizar copos limpos, verificar a procedência dos alimentos, evitar o contato com pessoas doentes. Em relação às Doenças Sexualmente Transmissíveis, utilizar os mecanismos de barreira, como o preservativo, a monogamia recíproca ou a abstinência. Com vacinas e os conceitos básicos de higiene, o indivíduo obtém esse respaldo.

E o senhor acredita que o brasileiro já esteja consciente, em relação a esses conceitos?

Muitas coisas são culturais. Temos deficiências na educação, na saúde e, se compararmos com países adiantados, a situação é pior. Quanto pior o nível sócio-econômico, pior é essa conscientização. Temos muitas regiões que não têm saneamento básico, a água deveria ser distribuída universalmente, uma vez que hoje é clorada, própria para o consumo. Há muito que ser feito.

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