A avicultura não tem culpa
A avicultura não tem culpa
Paulo Muniz
Nos últimos 30 anos, a avicultura brasileira experimentou um grande desenvolvimento, saltando das condições de atividade manufaturada, desenvolvida no âmbito familiar, para grandes projetos, dotados de arrojo tecnológico e sustentação científica. Este desempenho vem garantindo ao Brasil o título de segundo maior produtor de carne de aves no mundo. Apesar da grande expansão verificada na atividade, o setor avícola tem enfrentado muitas crises, na maioria das vezes determinadas pela falta de políticas governamentais específicas e por atitudes equivocadas da equipe do Executivo federal.
Duas dessas crises tiveram singularidades comuns, pois ambas foram causadas por fatores externos ao setor. A primeira foi em 1983, quando o governo federal autorizou a venda dos estoques de milho. Estes estoques eram formados para suprir necessidades no período da entressafra, principalmente dos segmentos da criação de aves e suínos, os quais têm no milho sua principal fonte de alimentação.
Mesmo o governo sabendo que os estoques seriam necessários, eles foram vendidos para a União Soviética, caracterizando total desprezo para com os objetivos estratégicos que orientaram a sua formação. O caráter equivocado da medida ficou evidenciado pouco tempo depois, quando com os estoques internos zerados, o governo foi obrigado a realizar operações de compra externa de forma emergencial, para atender à avicultura e à suinocultura.
A emenda se revelou pior que o soneto, pois o milho importado, comprado nos Estados Unidos, era de péssima qualidade. Além disso, o negócio não teve critérios: para pesar mais, o milho veio misturado com um talco tipo calcário, cuja presença foi denunciada pela nuvem branca que cobriu Paranaguá, enquanto os cargueiros eram descarregados.
A crise atual, que abate o setor, felizmente já dá sinais de superação. Foram tomadas medidas de impacto, como a eliminação antecipada das matrizes, que resultou na diminuição da produção, amenizando a dependência na aquisição do milho, insumo pouco disponível no momento.
Neste processo não existiram vencedores, somente perdedores. Mas em algumas regiões ou Estados, elas se caracterizaram com maior rigor, como aconteceu em São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Nestas regiões foram atingidos todos os tipos de integrações avícolas, que são importantes para suas regiões, pois são os sustentáculos de uma média economia rural que vem permitindo a fixação das famílias desses produtores em suas bases de origem, dando sustentabilidade a economia municipal.
Nesta crise atual, o protagonista foi o mesmo governo federal, só que desta vez ele se valeu de seus dois agentes mais fortes da economia, o Ministério da Agricultura e o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A atuação do governo deixou marcas indeléveis, como a ausência total de política agrícola, que nos últimos três anos não criou condições de custeio para o agricultor de milho, que respondeu não plantando e consecutivamente não produzindo.
Do outro lado, o todo poderoso BNDES também vem colaborando para o caos, financiando o aumento da produção avícola sem uma criteriosa avaliação voltada a avaliar se há consumo capaz de absorver tal investimento. Somente nestes últimos dois anos esta instituição financiou projetos que totalizaram R$ 199 milhões para o setor avícola, proporcionando um crescimento na produção de 40 milhões de cabeças de aves/mês. Isso indica um crescimento de 15% na produção, representado por projetos já em operação ou em fase de pré-operação.
É evidente que não somos, em absoluto, contra o crescimento. Porém, qualquer ampliação na produção necessariamente tem que ter a contrapartida da sustentabilidade. Caso contrário, coloca em risco todo um setor.
É importante que se diga também que o apoio do BNDES se concentra com exclusividade nas grandes empresas com poder político e econômico, enquanto para as empresas de médio e pequeno porte, resta buscar seus recursos nas instituições privadas, com custo muito superior ao sistema de crédito oficial. Aqui se confunde a mensagem social do presidente Fernando Henrique Cardoso com as ações efetivas de seu banco de desenvolvimento.
Por outro lado, o aumento deliberado da oferta de carne de aves leva o setor ao autofagismo, provocando disputas canibalísticas do consumidor. Os volumes de carne de aves ofertados no mercado interno não encontram a contrapartida do consumo, enquanto o mercado internacional se encontra superofertado, com seus preços declinantes em mais de 40%. Percebe-se então, que propor o aumento de produção via incentivo oficial, sem a existência da contrapartida do consumo, é antes de mais nada favorecer o desalojamento de indústrias já existentes, que sequer por uma única vez receberam apoio do sistema oficial de crédito para o seu desenvolvimento.
Resumidamente, o mercado consumidor é único e tem suas limitações impostas pelo consumo possível. Ou seja, em dados momentos é preferível investir em aumento de produtividade ao invés de aumento de produção, pois são duas coisas distintas. O simples aumento numérico não se traduz necessariamente em ganho para o produtor e para o consumidor e não significa promover o crescimento e tampouco preserva o lado social existente.
O BNDES dispõe de material humano da mais alta qualidade. Que ele faça então um diagnóstico profundo no setor avícola integrado, que possa trazer alternativas positivas para o segmento. Por certo, após a realização deste estudo, o banco vai concluir ser mais produtivo e econômico investir nas empresas já existentes, regularizando gargalos produtivos, ao invés de injetar recursos em novos projetos provocando o desequilíbrio entre oferta e demanda.
Por fim, seria de muito bom alvitre o BNDES passar a avaliar mais profundamente os investimentos setoriais, principalmente aqueles atrelados à oferta, demanda e às características comerciais dos segmentos produtivos. Também é importante que o processo de decisão sobre a aplicação de recursos leve em conta a avaliação de representações associativas de classe nacionais ou estaduais, o que é fundamental para que se obtenha uma orientação precisa da situação real do mercado.
- PAULO FERREIRA MUNIZ é presidente da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar)





