Flávio Marques Ferreira
As alíquotas zero de IPI e ICMS para a exportação de autopeças e o choque cambial de janeiro, que reduziu o preço em dólar dos produtos brasileiros, não são suficientes para conferir a necessária competitividade aos fabricantes nacionais. As contrapartidas negativas àquelas pretensas vantagens competitivas têm muito mais peso. A começar pelo ‘‘Custo Brasil’’, incluindo os itens relativos às operações portuárias/alfandegárias, ônus financeiros e contratos de câmbio. Soma-se a isso o aumento interno de impostos, como a CPMF e a CSLL, a redução de tributos verificada em acordos regionais no âmbito do Nafta e da União Européia e o preço das autopeças asiáticas, incentivadas pelo mais cruel dos subsídios: salários muito baixos.
O problema, contudo, tem outra vertente grave, cuja solução, ao contrário do ‘‘Custo Brasil’’, não depende apenas do governo, mas sim da iniciativa privada. Trata-se da inconsistente e frágil credibilidade do País no exterior, frequentemente abalada pelas constantes alterações da política econômica (uma responsabilidade do Estado). Este problema é colocado às claras pelos exigentes compradores internacionais, no momento em que se procura fechar um negócio, exigindo esforço adicional de venda – e haja retórica! – na tentativa de se mostrar que há, nesse contexto genérico, honrosas e não raras exceções.
Essas questões são muito preocupantes para o setor de autopeças, para o qual exportar mais, neste momento, é fundamental, considerando-se a visível retração do mercado interno e também do Mercosul. Além da já conhecida e divulgada queda na produção nacional de veículos, há outro indicador preocupante: na Argentina, a produção de veículos, de janeiro a setembro de 99, foi de 206.279 unidades, contra 370.298, em igual período de 1998. Uma queda, portanto de 44%. Assim, é preciso buscar mercados acima da linha do Equador e além do Atlântico.
Os fabricantes de autopeças têm procurado reagir a esta situação. Tanto assim, que, em julho deste ano, o item ‘‘exportação’’, no mix de faturamento do setor, representou 27,8% das vendas, contra 25,5% no mês anterior e 20,9% em igual período de 1998. No entanto, em números absolutos, os dados não são nada positivos: de janeiro a junho de 1998, o Brasil exportou US$ 2,06 bilhões em autopeças, contra US$ 1,47 bilhão em idêntico período de 1999. Embora a balança comercial do setor esteja equilibrada, a queda real em volume de vendas para o exterior é bastante acentuada, demonstrando, por outro lado, haver grande potencial para a prospecção do mercado internacional.
Explorar adequadamente esse potencial é um desafio decisivo para os fabricantes brasileiros de autopeças. Aliás, o aumento das exportações, em todos os segmentos da indústria, seria muito importante na presente conjuntura da economia brasileira, num ano claramente recessivo e de agravamento do desemprego. Portanto, exportar não pode mais ser uma insólita aventura.
No presente cenário da economia mundial, não basta defender o próprio território contra as investidas dos concorrentes externos. É preciso disputar todos os mercados, com senso de logística, estratégia, planejamento, competência e, claro, com o respaldo de uma legislação interna e um sistema tributário menos perversos com quem produz e trabalha.

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