A atuação da PF (Polícia Federal) em investigações e ações para desmembrar esquemas de corrupção e outros crimes envolvendo agentes públicos costuma colocar a corporação em evidência e na mira de políticos, servidores e empresários que têm interesse em diminuir a independência da PF.

Enquanto a instituição dá provas de competência, fica claro à sociedade que é preciso dar condições à PF para que ela se mantenha independente como polícia de estado e não de governo.

Nos últimos anos, várias ações envolvendo a PF levantaram questionamentos por parte da sociedade e de especialistas em segurança pública, gestão pública e compliance. São vários episódios. Um deles, no ano passado, teve grande repercussão, quando o então ministro da Justiça Sergio Moro, durante o anúncio de sua demissão, acusou o presidente da República de interferência na PF, afirmando que Jair Bolsonaro tinha exigido a troca do comando da instituição, com o objetivo de nomear um diretor-geral que repassasse ao presidente informações sobre investigações e inquéritos em andamento no STF (Supremo Tribunal Federal).

Em abril, o delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva perdeu seu posto de chefe da sede de Manaus depois de denunciar o então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles por "causar obstáculos à investigação de crimes ambientais e de buscar patrocínio de interesses privados e ilegítimos perante a Administração Pública". Sob denúncias de corrupção, Salles pediu demissão do governo na última quarta-feira (23).

Também na última quarta-feira, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, chamou a imprensa para um pronunciamento em que ele disse que, por determinação do presidente Jair Bolsonaro, o governo vai "mandar" a Polícia Federal investigar o deputado federal Luís Miranda, do DEM do Distrito Federal, e o irmão dele, o servidor do Ministério da Saúde Luís Ricardo Fernandes Miranda, que denunciaram supostas irregularidades na contratação de 20 milhões de doses da vacina Covaxin.

Esperava-se que a Polícia Federal ou outro órgão competente partisse para investigar a denúncia de superfaturamento na compra das vacinas e, caso comprovado o crime, os responsáveis fossem punidos.

Bolsonaro não é o primeiro presidente a ser acusado de tentar interferir na Polícia Federal, cuja independência é garantida pela Constituição Federal de 1988. Tanto FHC, Luiz Inácio Lula da Silva e Michel Temer enfrentaram queixas de tentativa de interferência à instituição em seus mandatos.

Encontrar meios de blindar a Polícia Federal e outras corporações contra interferência política é uma preocupação legítima e precisa estar no centro do debate.

É fato que essas instituições policiais ficam vulneráveis a interferências quando os seus cargos de chefia são indicados pelo poder Executivo. Não há uma lista tríplice, como é o caso do Ministério Público, ou como acontece nos Estados Unidos, em que o diretor-geral do FBI, a polícia federal americana, tem um mandato de 10 anos.

Uma pergunta que precisa ser feita é justamente esta: como garantir a autonomia da Polícia Federal?

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