A autofagia destrói o Estado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de setembro de 1997
Faruk El-Khatib 
A piada é antiga, quase perdeu a graça, mas resume bem, de maneira sarcástica, o que se passa por muitas das cabeças aqui do Estado. Diz o seguinte. Um empresário americano veio ao Brasil para tentar vender seus produtos. Bateu à porta de um paulista, cliente em potencial. Depois de muito explicar os atrativos do que tinha para vender, ouviu a pergunta:
- O que eu vou ganhar com isso?
No Rio de Janeiro, o carioca ouviu a ladainha do vendedor e tascou:
- O que nós vamos ganhar com isso?
Por último, chegou em Curitiba e marcou hora com um grande empresário local. Conversa vai, conversa vem e, no final, a pergunta do curitibano::
- O que você vai ganhar com isso?
É isso mesmo, tem muita gente por aqui mais preocupada com os outros, em criar defesas contra o sucesso do vizinho, do que em tentar promover seu próprio desenvolvimento, que vai gerar o crescimento coletivo da cidade e do Estado. É aquela história do santo de casa, que por aqui nunca faz milagre. Qualquer um que ouse colocar a cabeça para fora, acima da massa, é automaticamente destruído. Todos se preocupam com os outros. Como é impossível ser melhor que o outro, a prática comum é nivelar por baixo e por aí vai. É uma autofagia absurda e selvagem, que prejudica a todos.
Por que isso acontece? Há uma história a contar, que pode nos ajudar a encontrar a resposta. A Grafipar, fundada por meu pai - Said Mohamad, grande figura -, chegou aos anos 70 como uma das maiores editorias do país. Num grande esforço editorial, lançou a História do Paraná, quatro volumes de texto e pesquisa de 13 autores paranaenses, um trabalho até hoje único no Estado. Um sucesso? Em termos. Em Curitiba e região, como Ponta Grossa e Paranaguá, onde se deu o nascimento do Paraná, as vendas foram muito boas. Mas no Norte e no Sudoeste foram ridículas. Por que? Nas escolas do Norte, povoado por imigrantes paulistas, as professoras sentiam-se mais à vontade com livros sobre a história de São Paulo. No Sudoeste, região de gaúchos, só se falava - e se fala até hoje - em Rio Grande do Sul. É por razões como essa que o Estado se enfraquece politicamente, tem pouca representatividade. Cada região está voltada para um lado.
Não há uma identidade única estadual. Ninguém quer correr riscos, é cada um por si. Está aí o grande desafio para quem pretende acabar com a autofagia na terra das araucárias: integrar. Mudar a cabeça dos que estão aí, transformar o que já está arraigado por anos e anos de comodismo, preconceito e inveja é quase impossível. O melhor é começar pelos mais jovens, a criançada. Começar nas escolas, por que não? Fica aqui a sugestão para a criação de um movimento a favor do paranismo e contra a autofagia que assola o Estado. Pode ser o primeiro passo, mas para isso é preciso querer.


