A auto-suficiência nos salvará - Walmor Maccarini
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quinta-feira, 04 de fevereiro de 1999
Walmor Maccarini 
Se o Brasil buscar a auto-suficiência não será atingido por crises, nem as temerá. Não precisa que seja auto-suficiente em tudo, porque isto é impossível, mas ao menos naquilo que sabe fazer melhor. Pouco adiantarão esses reparos de emergência (como a nova mudança do presidente do Banco Central), porque amanhã o problema retornará, eis que as causas não são eliminadas. Somos um país fragilizadoá - compreenda-se aí a nossa infra-estrutura e o mau uso que fazemos da terra e dos recursos naturais - e também uma nação frágil em muitos aspectos - entenda-se aí o povo e sua cultura, o grau de educação que tem, o valor que atribui à cidadania, o pouco patriotismo.
Antes de mais nada, é tempo de nos conscientizarmos de que as crises brasileiras nunca serão resolvidas por governos, nem daqui e nem de fora. Primeiro, porque falta-lhes competência; segundo, porque falta-lhes recursos; terceiro, porque não é sua função. A solução dos problemas do Brasil está nas mãos dos brasileiros e de ninguém mais. Qualquer medida paliativa para driblar a crise de agora será, mais uma vez, mero artificialismo.
O País precisa criar infra-estrutura que o imunize, e então nenhuma tempestade vinda de fora o abalará.
Mas, se é verdade que o governo não opera a salvação, é muito competente no estrago que pode causar. Por isso temos razões de sobra para temê-lo.
O presidente FHC, desde que assumiu, ficou de costas para o Brasil, contemplando o mundo. Apenas cuidou de seu real enjaulado. Que ele nunca soltou. Nunca ninguém viu FHC calçar um par de botinas e ir para o campo conversar com os agricultores. Também ninguém o viu conversando com as lideranças industriais. Apreciou-lhe muito, nestes anos, ir para o exterior em busca de aplausos. Agora que lhe escassearam as palmas do mundo e ele caiu na real, quem sabe se lembre de que é presidente dos brasileiros e não dos especuladores internacionais.
FHC sempre foi o diplomata dos belos discursos, recheados de ironias contra os que ousaram apontar-lhe falhas ou indicar-lhe rumos. Chegou a ser irritante com sua indiferença, sobretudo ante os clamores do povo contra sua obsessão pelos juros estratosféricos (que agora o novo presidente do BC, um homem de mesa, avesso a teses desenvolvimentistas, acena em conservar). FHC nunca quis ver e escutar. Seus mentores econômicos e monetários só sabem de contas internacionais. Não devem saber o custo de produção de um saco de soja, de milho ou de arroz, da arroba do boi.
Por que um ministro da Fazenda só tem que ir a Washington e Nova York na busca de resolver problemas do Brasil, e não desce para conversar com os produtores rurais, com os macro e microindustriais e demais segmentos da sociedade produtiva, que gostariam de lhe mostrar e lhe dizer tantas coisas?
Será que é pedir muito que FHC e seus ministros visitem o Brasil? Parece que a saúde econômica do País é medida pela oscilação das bolsas de valores, pela reação dos aplicadores internacionais, e que não importa a situação aqui nas bases, onde estão os que plantam, as médias e micro empresas - só estas, responsáveis por 70% dos negócios e dos empregos. Mas FHC ignora esses números. Santifica o especulador de fora e despreza o empresário brasileiro. Não se dá conta que seu país, o Brasil, dono deste território gigante e desta terra fertilíssima, importa quase todo o trigo que consome, afora uma infinidade de outros produtos agrícolas. Se existe pecado, este é um deles. Seria como termos que importar mulatas para sambar em nosso Carnaval e trazer sambistas da Argentina para nos ensinar batucada...
Então, se é verdade que o governo pode fazer pouco, embora tenha atrapalhado bastante, deveria ao menos criar um grande projeto para a agricultura, com políticas de financiamento rápido e barato, de infra-estrutura para escoamento das safras, de armazenagem e silagem, busca de mercados externos, facilidades para a exportação, legislação trabalhista adequada ao campo. Aí sim abasteceríamos de alimentos não só o Brasil, mas todas as nações que precisam importá-los. Nos encheríamos de dólares reais. E de reais. Aí não conheceríamos crises, poderíamos receber quantos dólares especulativos chegassem, deixá-los ir embora quando quisessem, saudar a chegada dos investidores e parceiros de fora, sem medo de perdê-los. Mas FHC deve ter vergonha de que o Brasil progrida pelas vias do campo, coisa de caipira...
A agricultura é um caminho para nos tornarmos auto-suficientes. Porque se a agricultura vai bem, tudo o mais irá bem. O que é uma indústria senão a processadora de matérias-primas que emergem da terra, alimentos em primeiro lugar? Mas parece que impera no meio oficial o receio de admitir que somos um país de grande potencial agrícola, antes que outra coisa. O maior potencial do Planeta. Os veículos de comunicação também gastam pouco espaço para a agricultura e as questões do negócio agrícola. Esquecem-se de onde vêm os produtos expostos nas gôndolas dos supermercados e a comida que chega à mesa.
Se o campo se fortalece ficam fortalecidas as cidades. O campo garante as cidades. Estas, sozinhas, não se sustentam.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


