A assustadora corrupção
Torna-se estarrecedora essa constatação recente: todos temos um amigo ou algum vizinho que conheça alguém que ocupa as páginas policiais dos telejornais! Como as coisas estão ali na esquina. A corrupção nos golpeia com proximidade escandalosa. Como ela nos observa do alto de uma familiaridade escandalizante. Não é mais, algo distante que está em patamares inalcançáveis para o comum mortal. Os seres humanos normais se habituaram a vê-la e a cumprimentá-la com certa intimidade e a senti-la nos bolsos, onde chegam seus tentáculos inevitáveis de maldade e crime. A corrupção neste país tornou-se cinicamente "de casa". Tanto que uma boa maioria nem a enxerga mais.
O fogo amigo da corrupção é provocado pela tempestade de denúncias reais que acabam umas sufocando e escondendo as outras. São tantos os focos de incêndio, que o cidadão quase que acredita em alguma mente prodigiosa oculta que vise confundir os que ainda se assustam com essas mazelas. Quando nos refazemos de uma tempestade ou avalanche de maldades, chega outra maior que nos rouba a atenção e nos faz de certa forma esquecer a anterior. A cada dia, sua desgraça ou seu mal como diria a Bíblia. Alguns dizem que uma gravidez de décadas ou séculos, dá agora à luz, num ambiente democrático, seus monstros devoradores da legalidade e da própria democracia em forma de crimes contra o erário público. Outros afirmam que "nunca como hoje" se assaltou tanto a res pública à sombra de uma explícita e sobejamente conhecida impunidade. Seja como for, não tem sobrado espaço nos jornais para outras informações de interesse público que não abordem o desvio de recursos preciosos para os brasileiros.
O Legislativo vive há muito alheio à saga nacional de impaciência e revolta com todo este processo devorador de vida. Haja visto a farra circense em torno da eleição do presidente da Casa. Ali, a distribuição de cargos ofuscou qualquer preocupação com o país. O Executivo tomado por uma surdez crônica e uma miopia irritante, demonstra não entender os recados que recebeu do povo nos últimos meses e continua agindo como se nada estivesse acontecendo.
O Judiciário, que se configura como a esperança dos que teimam em acreditar nas instituições e no próprio Estado de Direito, deve fazer um esforço contínuo em vencer a tentação de se distanciar da população. A Justiça é verdadeiramente ela, quando está próxima e se mostra sensível à história dos que dela precisam. Juízes, promotores e membros de outras instâncias são bem remunerados para serem inequivocamente sentinelas de um povo cada vez mais espoliado e ludibriado pelos que elegeu. O Judiciário é fundamental para evitar-se o que todos tememos: uma convulsão social inconsequente e imprevisível. A independência deste poder frente aos outros vai além de uma questão financeira. Não se pode tolerar mais que, direta ou indiretamente, o Judiciário tenha qualquer "dependência" de outros poderes da República. Devemos caminhar para reformas estruturais de Estado que coloquem os Três Poderes páreos trabalhando de forma harmoniosa, independente e separados. Num contexto político vivido hoje pelo nosso país, em que as denúncias atingem níveis insuportáveis, o poder Judiciário deve mostrar aos cidadãos que as principais instituições da República estão defendidas e nenhuma tempestade as derrubará.
Nestes quase 30 anos de redemocratização aprendemos muitas lições. A principal delas é que o país não crescerá e não será uma nação de todos e para todos, enquanto o polvo da corrupção estiver infiltrado no poder e dominar os protagonistas da política nacional. O Brasil está sendo massacrado internamente pelos que, abrindo as comportas do desvio do dinheiro público, destroem as escadas por onde devíamos ascender ao andar superior. Assim, patinamos na lama vendo as carroças passar ou, como se diz, perdendo mais uma vez o bonde.
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