A Copa do Mundo de futebol se aproxima do fim e, com a sagração do novo campeão do jogo dos jogos, se encerra uma era – a de Lionel Messi, o sem igual enganche argentino que o mundo aprendeu a enxergar e validar enquanto o espanto que coloriu as cinzas do lugar comum.

Artesão da própria simplicidade, Messi, aos 39 anos, segue imbricando em seus movimentos e visão de jogo, toda a beleza que está por se resgatar no oceano de fantasias que os deuses sopraram na face do homem.

Fazendo do extraordinário um instante singelo, Messi me lembra (pela sem cerimônia de seu jogo descomplicado que estabelece um caos ocupacional de espaços) a personagem de Giancarlo Giannini em Pasqualino Settebellezze, um filme de Lina Wertmuller do início dos anos 70 – século XX baby, século XX...

Contextualizo: Na efervescência da Segunda Guerra Mundial, o italiano Pasqualino (interpretado por Giancarlo Giannini, em seu maior papel) mata, acidentalmente, o amante de uma irmã. Para escapar da cadeia se alista no exército italiano. Soldado, Pasqualino é atingido pelos horrores da guerra e deserta. Em sua fuga é capturado pelos alemães que o enviam a um campo de concentração.

Enfim preso (se não pelo homicídio acidental, pela deserção) Pasqualino luta para sobreviver como nunca o fez para viver – e é precisamente essa consciência adquirida na maledicência de suas opções que caracteriza a personagem de Giancarlo Giannini, feito Messi e sua capacidade de negar a lógica para estabelecer a fantasia.

Pasqualino, assim como Messi, transforma o caos de viver na liturgia do próprio delírio, fazendo do contexto do jogo de bola (e da existência dos desgraçados) um lugar que nos acolhe.

A história de Pasqualino é contada em flashbacks que misturam seus momentos de vida. A essência de Messi aflora em campos de futebol que misturam América Latina e La Masia, na acepção de seus movimentos e antevisão do jogo como um todo, perpassando o caos e atracando terra firme, no desenho redivivo de uma odisseia particular e afetiva...

Tá, mas onde a fantasia de Messi se encontra com a história ordinária de Pasqualino? Ou porque diabo eu me lembro do italiano ao ver o argentino metaforizar o jogo de bola?

É que ambos (o jogador de futebol e a personagem da película italiana) são reflexos da visão de Oscar Wilde, popularizada conceitualmente no bom da vida ao sugerir com as tintas de sua poesia vitoriana, que ‘a vida imita a arte’.

Você certamente ouviu a frase de Wilde (talvez não soubesse ser dele), mas já parou e pensou em seu significado? O escritor vitoriano destacou a absorção de comportamentos e padrões das narrativas e estereótipos ficcionais que os contadores de história esparramam, pela estrada da existência – ou de fazer o sonho acontecer, como traduziu Lô Borges...

Oscar Wilde foi, por assim dizer e em polo de convívio com Lô Borges, o primeiro inglês/mineiro da humanidade. Depois vieram outros, mas essa prosa fica para uma próxima volta. O que importa aqui é compreender que as esquinas das Minas Gerais seguem vivas no fog inglês, justamente porque a estrada é quem faz o sonho acontecer...

Ao se alistar no exército italiano Pasqualino pensou que se livraria do horror da prisão. Como dois horrores não contam uma história de belezas, o italiano sobrevivente aportou no horror da guerra, esgotando em suas escolhas o caminho de sua convicção. Ao migrar da Argentina para Espanha aos 14 anos, Messi percorreu o sonho dos infantes: ganhar a vida fazendo o que ama...

As sete belezas de Pasqualino (suas irmãs) vão além de suas lembranças e abraçam o conceito encarnado em sua fuga de si mesmo. Isso lhe fez um sobrevivente (nunca um vivente).

A magia de Messi lhe pertencia independentemente do local de sua maturação e é justamente esse o espaço de fantasia por onde se anuncia o jogo e os movimentos de Lionel Messi, cuja vida é um portfólio da própria arte, desenhado e concebido para absorver o apogeu da imaginação humana.

Para os argentinos Messi é um enganche (meia clássico que cria espaços e chega na área adversária para finalizar). Para os italianos Messi seria um fantasista (criador de jogadas, inventor de fantasias com a bola, jogador de extraordinária habilidade e grande criatividade tática).

Para Oscar Wilde, Messi seria um ficcionista proseador de ilusão, encimado em suas nuvens de fantasia à espera dos momentos de magia que a desilusão de suas escolhas pelo campo de jogo impõe a seus adversários.

O cinema estaria para o jogo de futebol (Pasqualino estaria para Messi) assim como a arte para a vida – imitando-a, com a finalidade de sobreviver ao inferno de ser os outros em uma conjuntura de fantasia e magia.

Obrigado Lionel, a beleza de existir passa pela fantasia singela de teu jogo.

Tristes trópicos, saudade Pai!

João Gomes Filho, advogado

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