A arte contra a violência
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de maio de 1999
Joel Samways Neto 
A vinte meses deste século 20 acabar, talvez a principal preocupação da sociedade brasileira seja, hoje, a segurança pública. E decerto alguém vai ler essa frase e já vai pensar em policiamento ostensivo nas ruas, aumento de salário para a polícia, atualização de recursos humanos e materiais. Certo, também passa por aí, mas é muito mais do que isso. Simplesmente aumentar a repressão pode resolver acontecimentos e conjunturas de violência, mas não lhe afeta a estrutura que lhe dá origem. Reprime, contém, abafa, porém não extingue.
A estrutura que origina a violência social tem formação histórica, é multifacetada, plural, complexa, envolve os tais fatores endógenos e exógenos tão prezados pela criminologia. Que a causa da violência não é só econômica todos sabemos (do contrário, haveria muita dificuldade para reprimir os 21,4 milhões de indigentes brasileiros, conforme número divulgado pela Cepal, recentemente. Pior periculosidade é a do colarinho branco). No ranking das melhores explicações e soluções, continua em primeiro lugar a educação. A violência social decorre, principalmente, da crise na educação, e a solução do problema continua sendo investir, inteligentemente, no processo educativo.
Evidentemente, há que se falar em investimento no sistema de ensino, público e privado. Todavia, não se pode correr o risco de imaginar que esse investimento se restringe a implementar recursos humanos e materiais só dentro de salas de aula. Educação não se faz apenas em sala de aula, se faz na vida cotidiana - da casa à praça pública, das filas de ônibus às filas de banco, em todo lugar onde houver pessoas.
Um cidadão violento pode chegar a se comportar melhor diante da ameaça de ser preso; ele reprime seus impulsos porque não quer ser privado de sua liberdade. Agora, essa repressão dificilmente fará com que ele compreenda a inutilidade da violência, faça reflexão e mude seus valores, sua forma de agir. O medo condiciona, mas não educa ninguém.
Diante disso, há uma necessidade urgente de se investir em instrumentos e instruções que toquem na alma do cidadão violento, que o sensibilizem àquele algo que lhe faz respeitar a cidade onde vive e os seus concidadãos, porque ele se sentirá pertencente a esse conjunto. É aí que entra a arte como ferramenta de educação.
A arte realiza a pedagogia da emoção. O sujeito, contemplando uma escultura ou assistindo a uma peça de teatro, é levado primeiro a se emocionar, depois a racionalizar (é óbvio que, dependendo da peça ou da obra, pode não acontecer nem uma coisa nem outra). O artista, através de seu trabalho, consegue provocar a emoção e faz a ponte para que o usuário da arte alcance uma outra margem, e se reconheça na obra, e se identifique com o que ela representa.
A questão é que a arte alienígena funciona menos, nesse aspecto de dialogar com a alma coletiva, do que a arte nativa, popular. Então é um problema, pois boa parte dos salões, exposições, festivais, de arte, tendem a, em nome de uma pretensa contemporaneidade, praticamente impor um modelo que muito pouco tem a ver com nossa história local, regional, nacional. Outro problema é se os premiados, além de se parecerem muito uns com os outros, sempre forem discípulos dos integrantes das mesas julgadoras, que selecionam o que o público vai ver de atual. Ou seja, se isso acontece, é claro que a arte se transforma num sistema fechado, consequentemente morto.
O que é preciso é que o investimento dê uma chance à arte popular, nativa. Não significa que se deva premiar por premiar, promover por promover, a pessoa do artista conterrâneo, mas sim a expressão da arte conterrânea, porque ela fala diretamente ao povo local, regional, nacional. Ninguém está falando em exclusividade, em xenofobia - o que se reclama é de espaço para nós olharmos, enxergarmos, vermos e sentirmos as coisas da gente, e assim podermos nos identificar enquanto coletividade. Isso ajudará a diminuir a violência social.
O interessante da arte popular é que ela dispensa boa parte das cautelas exigidas pelas exposições internacionais. Pode-se expor, encenar, apresentar, em terminais de transporte coletivo, nas praças e parques, no pátio das escolas - como já disse, onde houver pessoas. Permitindo-se ao povo olhar a arte popular, o passo seguinte é a arte-educação, ensiná-lo a enxergar, ver, sentir, identificar-se...
Povo educado dispensa algemas, camburões e celas.
JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba


