Quando embarcamos em um navio ou avião, fazemos isso porque temos certa confiança em seus equipamentos e nos técnicos que os construíram e o fazem funcionar. Também dependemos totalmente dessa gente e desses sistemas, e se algo sai errado é pouco o que podemos fazer para nos salvar. Hoje em dia, a vida está se tornando igualmente dependente do que o filósofo Georg Henrik von Wrigth chama de ‘‘tecnosistema’’.
A vida se desenvolve, ou acostuma-se a se desenvolver, de modo diferente no campo ou nos pequenos povoados, onde os aparelhos modernos falham por não poderem tirar água do poço, recolher a lenha na mata nem obter alimentos dos cultivos ou das criações de animais. No mundo moderno, esta relativa autonomia está se convertendo cada vez mais em um luxo.
O morador de uma cidade não pode viver sem eletricidade, água corrente, automóveis, ônibus, telefone e muitos outros sistemas que tornam possível o funcionamento da própria cidade. O fracasso de um só desses sistemas pode levar a um ‘‘quase desastre’’. Sobram os exemplos. Nossa vida depende cada vez mais dos créditos e, por sua vez, do sistema bancário integrado e computadorizado em nível mundial. Inclusive os camponeses estão se tornando mais dependentes do tecnosistema globalizante que lhes fornece previsões do tempo, produtos químicos, sementes e combustíveis.
Tanto o número de pessoas dependentes deste tecnosistema como o grau desta dependência estão aumentando nitidamente. O resultado final deste processo poderia ser uma integração total dos seres humanos com os tecnosistemas que estamos construindo. Falando de outra maneira, estamos construindo um novo super Titanic, capaz de nos levar a todos numa viagem para o futuro. E, como no caso do navio condenado, os passageiros do super Titanic nunca estarão em condições da abandoná-lo, pois o número de botes salva-vidas é pequeno. E a lista de passageiros inclui milhares de milhões de pessoas.
Os dois Titanic são produtos de conceitos similares. Como hoje, em 1912 pairava no ar um grande otimismo quanto às possibilidades da tecnologia: a humanidade havia inventado o telefone, o rádio e o automóvel, havia encontrado a cura para muitas doenças, havia traçado o mapa total do Planeta e criado uma nova maravilhosa civilização pensada para ser imune às guerras, aos desastres, ao mesmo tempo em que o Titanic foi planejado para não afundar.
Entretanto, ao contrário do que acontece no mundo globalizante, o Titanic, além da imperícia e da negligência de sua tripulação, pelo menos foi construído tendo em conta a segurança e com o claro propósito de transportar pessoas de maneira segura e confortável através do Atlântico.
Por outro lado, o moderno tecnosistema global é uma colcha de retalhos, um conglomerado de muitos sistemas e redes com um propósito não claramente definido. Esse tecnosistema é construído por pessoas motivadas principalmente pelo desejo de fazer dinheiro ou de resolver problemas específicos. Enquanto se dá atenção à segurança dos sistemas e das redes individuais, poucas pessoas parecem preocupadas com a segurança dos tecnosistemas como um todo.
Mas é viável o mundo que estamos construindo? Será um lugar seguro num futuro não muito distante? O que acontecerá se afundar? Morreremos todos, ou a maioria de nós? Apesar dos esforços pioneiros de alguns futurólogos, as respostas não passam de tentativas. E, inclusive, estas perguntas estão ofuscadas pela nova onda de semicomercializado tecno-otimismo, por legiões de novos Pangloss que procuram nos convencer de que logo estaremos vivendo no melhor dos mundos possíveis.
Devemos nos perguntar se não estaremos cometendo um gigante engano que a natureza evitou. Com milhões de espécies, milhares de ecossistemas e milhares de grupos étnicos e de culturas, a natureza criou um mundo propenso a muitas enfermidades, desastres e erros, mas que, como um todo, é muito mais seguro do que o tecnosistema que agora construímos precipitadamente.
Será que o estamos construindo com a violação de algumas leis básicas da natureza? E não estamos destruindo a intrincada trama da natureza e substituindo-a por um sistema mais primitivo, integrado e praticamente monocultural que não pode durar? Não seria mais sábio para todos nós construir não apenas um futuro, um só tecnosistema globalizado, mas muitos alternativos? Havendo diversas maneiras de pensar, vários tecnosistemas, outras civilizações, não teríamos melhores possibilidades de sobreviver ao naufrágio desta civilização que, em seu desmedido orgulho, considera a si mesma a melhor e a única?
- JAAN KAPLINSKI é escritor, poeta e ex-deputado no Parlamento da Estônia

mockup