A aposta na baderna (Luiz Geraldo Mazza)
Luiz Geraldo MazzaA aposta na baderna
A existência de pré-condições acumuladas para o tumulto generalizado é algo perceptível na pele: saques no nordeste, retirantes em procissão, passeatas e greves inerciais como essa universitária, ações do MST hoje extrapolando o front agrário para buscar a mobilização dos chamados excluídos da periferia dos centros urbanos e diante dos supermercados. Enfim um caldo de cultura adequado igualmente para uma oposição sem rumo e que se serve da liberdade democrática para atingí-la mortalmente. Este o quadro de ontem em Brasília.
Há mais comando nessa oposição das ruas e dos campos com as invasões, aliás aceleradas por causa da omissão pastosa do governo em não cumprir decisões da justiça, do que no poder central, preocupado com as reformas de meia sola e a reeleição sob o pretexto de complementá-las e aperfeiçoá-las. Pode-se dizer tudo do governo, menos que seja repressivo dado o grau de provocação patente na crônica invasão de prédios públicos. Manifestações como as anteriores de sem terras em Brasília, precedidas de marcha pelo território nacional, o demonstram. Há tolerância extrema, o que não houve, no entanto, com ACM no governo que botou militares com armas embaladas para deter a invasão de prefeitos, o que convenhamos seria também idiotice e demagogia.
Depois do represamento das liberdades com o regime militar, que se instalou justamente por causa da baderna, da quebra de hierarquia militar e também dos interesses conflitantes da guerra fria, estamos experimentando o excesso das manifestações. Isso não é de hoje: aqui no Paraná tivemos uma invasão consentida, pela Comissão Executiva da Assembléia, do prédio daquele poder por vários dias por professores e sindicalistas em greve e também o conflito PM versus professores no governo Álvaro Dias; em São Paulo os basistas, logo no início de um governo apoiado pelas esquerdas, o de Franco Montoro, teve os muros derrubados do Palácio Bandeirantes pela multidão em fúria.
Como alguns romanticamente acreditam num revival de 68 já havia em Brasília quem a olhasse ontem como se fosse Jacarta. Ora a analogia já revela o grau de estupidez: naquele tigre asiático, bajulado pela direita ocidental e apontado como paradigma, quando se trata de um regime policial, o protesto é tão válido quanto o da praça da Paz Celestial em Pequim. No Brasil o enfrentamento é burro porque põe a opinião pública, tanto neste caso específico quanto no dos saques, excluídos aqueles legitimados pela pulsão famélica, contra as forças que organizam e apóiam. Esse filme está velado, mas dá para perceber que revela no meio das sombras o ovo da serpente.CROMO
Uma cebola que faz chorar é aquela da ode do Pablo Neruda: desvenda em (uni)verso o bulbo carnoso e iluminado como quem lhe faz a anatomia.
AXIOMAFidel e FHC se cumprimentam em Genebra, os dois com críticas ao sistema de comércio, o primeiro mais consistente por motivos óbvios. Os que desejam ver o presidente como no seu tempo de professor não podem imaginar um Fidel como guerrilheiro porque o mais imperdoável num herói é engordar e envelhecer no poder e não morrer. Santificado é Guevara pelo martírio inútil como a nossa Maria Bueno, exaltada na fé dos humildes.
GLOSA Ninguém pode ser feliz o tempo todo até porque se assim fosse não teria o referencial do que seria a infelicidade. Não saiu do calendário da Seicho-No-Iê, mas de um discurso, imaginem, do Neivo Beraldin. Quem diria ligado com a filosofia. Lembra anedoticamente a estória do louco que batia com a marreta na cabeça e quando lhe perguntaram por que o fazia respondeu com lucidez: É que quando eu paro de bater me faz tão bem!
BIZARRICE Ontem, estrada das cataratas, Foz do Iguaçu, dois batedores da PM, que tanta falta faz, davam cobertura a van Topic, chapa HU 9671, que conduzia triunfalmente o Bernardinho, do vôlei, e o Osvaldo Santos, da Leasing, hoje na Secretaria de Esportes. O ôba-ôba, mais do que a burguesia, é estado de espírito. Em julho ou agosto a Procuradoria da República denuncia formalmente o afano da Leasing e o Osvaldo, por ser secretário, tem foro privilegiado após o furo também privilegiadíssimo.
SPRAY Lerner e Taniguchi intimados pela justiça eleitoral a explicar o uso da folhinha nos institucionais. Não sabia que tucano, que dizem ter incontinência fecal, gosta de folhinha. O PSDB quer bicar pra valer.- O pior virá na hora em que a Justiça comum vier em cima dos casos da Leasing. Choro e ranger de dentes e faturamento eleitoral na oposição.- Está se espalhando pelo Paraná a série de centros Rexona como o instalado ontem em Foz. No tempo do Ney Braga o balê era a moda e só faltava o povo andar de sapatilha. Agora é a onda do vôlei.- Lerner foi a Brasília para cumprimentar ACM (não confundir com a Associação Cristã de Moços) e pôde ver o badernaço. O sonho da oposição aqui é montar um circo desses. Só que falta capacidade de mobilização. Se ele passasse pelo drama de ontem teria que usar a bombinha contra a asma.- Jornal Hora H está interpelando judicialmente Maria Helena Borba, presidente do Clube de Mídia, que num evento no Centro Europeu afirmou que o jornal combatia o pedágio por chantagem. Não é só jornalista que deve ser distanciado, também o publicitário quando defende um interesse da área deveria tomar cautelas.- O governo subestimou a sociedade paranaense condicionada pela mídia chapa branca e agora está anunciando abrandamento desse assalto no asfalto. Na free-way de Porto Alegre um curitibano pagou R$ 1.00 e havia seis pistas.- A pressão vai aumentar porque a maioria aceita o pedágio como saída, mas não concorda com postos de cobrança de 50 em 50 quilômetros e muito menos com os preços.- Requião ontem em Brasília atribuía, segundo a rádio CBN, a ACM o fato de ter impedido ingresso de carros de som. Quem gosta de moleza é bebum em ladeira.-
FOLCLORE Estradas agora, principalmente as federais, vão lembrar as ligações entre fazendas e em que o usuário se obriga a abrir porteiras e vencer os mata-burros. Elas, juridicamente, seriam servidões de passagem. Agora a estrada tem dono e os postos de cobrança não são mata-burros, mas afaga-burros que é o que todos somos diante da violência das tarifas jamais explicadas à luz de códigos atuariais e de econometria.
AFORÍSTICO O PSDB do Paraná, ao impugnar a folhinha de Lerner, pretende fazê-lo também com os sinais do cardeal FHC com os signos do Brasil em Ação.





