A apatia estudantil - Renato Ferraz
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terça-feira, 01 de setembro de 1998
Renato Ferraz 
Os estudantes secundaristas sempre brigaram por alternativas de acesso às universidades. Principalmente os das escolas públicas. Sabem que o ingresso no ensino superior, via vestibular, sempre foi nivelado pelo poder financeiro. Afinal, quem estudou em escola particular leva uma vantagem imensa. Mas, quando aparece uma opção, esses mesmos estudantes a ignoram.
No domingo, pouco mais de 100 mil alunos, em todo o País, foram fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o chamado provão do 2º grau. Num universo potencial de 1,5 milhão de alunos, a procura foi decepcionante. Do total, apenas 157 mil se inscreveram.
A maioria recebeu uma mãozinha: Secretarias Estaduais de Educação, como a do Paraná, decidiram pagar as taxas dos alunos de escolas públicas. Dos inscritos, 30% preferiram outras atividades menos desgastantes para um domingo à tarde. No Rio, que teve índice de abstenção de 40%, a chuva foi eleita a culpada. Antes, os culpados eram a imprensa (que preferiu cobrir a greve das universidades) e o Banco do Brasil (que não teria sido ágil e eficiente no processo de inscrição).
Na verdade, tais variantes podem até ter contribuído para essa apatia. Mas o Ministério da Educação sabe que há outros meios de acesso, alguns diretos, aos estudantes. Como explicar que, em Brasília - sede do Ministério da Educação (MEC) e do Inep, o organizador do concurso - apenas 245 adolescentes tenham feito inscrição?
Mas o fato é que o próprio MEC não conseguiu convencer os estudantes da utilidade da prova. Por que pagar R$ 20 e perder um domingo se o exame, até agora, só serve de laboratório (que um dia servirá para medir a situação do ensino médio no País)? Até hoje, nenhuma universidade deu garantias de que usará o teste para substituir o vestibular.
Por enquanto, só algumas particulares - como a Pontifícia Universidade Católica do Rio - comprometeram-se, informalmente, a recrutar alunos por esse sistema.
Feitas as contas e constatado o fracasso, cabem agora correções de rumo. Ao MEC, apostar que o Enem é tão importante quanto o provão do ensino superior, possivelmente tornando-o obrigatório e gratuito. Depois, convencendo a sociedade e os secundaristas de que as universidades acatarão mesmo o resultado como alternativa ao vestibular - e fazer com que elas se comprometam a tanto. Nas federais, há resistência. A Universidade de Brasília, por exemplo, já tem o Programa de Avaliação Seriada (PAS). Por isso, não demonstra interesse.
Aos estudantes - principalmente suas entidades representativas - cabe deixar de lado as eternas preocupações imediatas (carteira estudantil para meia entrada em cinema, por exemplo) ou abstratas (como a resistência ao imperialismo ianque).
Eles devem estar conscientes de que a demanda por vagas no ensino superior aumenta ano a ano: hoje a relação é de dois concluintes por vaga. Em 1990, era 1,2 aluno/vaga. Mesmo que o concluinte não queira entrar no ensino superior, não deve desprezar o exame. O mercado de trabalho vai, em breve, anexar à ficha de contratação o resultado do Enem - que será, na prática, um vestibular para o primeiro emprego.
- RENATO FERRAZ é jornalista em Brasília


