Poucos irão discordar de que o fundamento do progresso e do desenvolvimento de um país se baseia na educação. A necessidade de uma reforma profunda do ensino tem se justificado porque, além de combater o problema do analfabetismo, atrai os excluídos da sociedade. Aqui no Brasil, conseguimos alguns avanços, principalmente no ensino fundamental, mas é preciso ir mais longe e apostar, também, no ensino superior. Somente no ano passado, 8,5 milhões de jovens se matricularam no ensino médio, mas boa parte deles não conseguirá ter acesso às universidades. E, para deixarmos para trás o círculo perverso da pobreza, é preciso garantir a chance de todo estudante ingressar no ensino superior. Ninguém pode ser excluído por ter nascido pobre. Sem estudo, num mundo cada vez mais competitivo, não terá igualdade de oportunidades.
Em 1995, o País tinha 1 milhão e 200 mil universitários. Destes, 150 mil foram financiados pelo Crédito Educativo, hoje denominado FIES. Atualmente, são cerca de 3 milhões de estudantes, mas menos de 200 mil conseguiram o financiamento do FIES. E o pior é que, lamentavelmente, muitos desses jovens, principalmente os mais carentes, reclamam que não conseguem ser contemplados pelo crédito educativo. Enquanto o governo não assume plenamente sua parcela de responsabilidade na melhoria do ensino superior, é preciso que haja políticas compensatórias. Uma das medidas, por exemplo, poderia ser a criação de mecanismos que incitem o sistema financeiro a manter carteiras com percentual de aplicação obrigatório nessa área, a juros abaixo dos de mercado.
Ao lado de iniciativas como esta na área privada, não se deve esquecer que a universidade pública tem - ou deveria ter - um papel social mais relevante que a particular. Esta situação é mais evidente no interior, onde não há universidades gratuitas e alunos carentes são obrigados a se mudar para os grandes centros, com suas famílias tendo de se virar para bancar as despesas de passagem, estadia e alimentação. Isso contribui ainda mais para o êxodo rural, porque os jovens costumam não retornar aos seus municípios de origem.
Só os que conseguem financiamento do crédito educativo podem permanecer com
a família. Daí a importância do financiamento estudantil. Ao analisar a situação de países vizinhos, como a Argentina, podemos constatar que o estudante brasileiro está em situação de desvantagem: aqui, menos de 2% da população têm a sorte de poder cursar o terceiro grau, enquanto, na Argentina, quase 4% dos jovens são estudantes universitários. A proposta do governo brasileiro na Unesco é de que em 2010 tenhamos, no mínimo, 10 milhões de estudantes universitários. Mas, para isso, precisaremos realizar uma profunda reforma educacional e dar mais atenção e apoio ao ensino superior.
RENAN CALHEIROS é ex-ministro da Justiça e líder do PMDB no Senado

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