A ameaça política (Editorial)
Na exaustiva análise que vem sendo feita sobre a crise econômica que está destroçando a Rússia, está faltando uma crucial leitura: a política. A grande maioria dos especialistas se detém na complicada situação econômica de um país, ditando soluções, propondo sacrifícios, fazendo exigências, sem levar em conta um quadro político, o que exigiria um procedimento mais cauteloso e inteligente de todos os envolvidos. A Rússia encontra-se em situação pior do que a de muitos dos chamados países emergentes, enfrentando dificuldades imensas, parecendo estar muito longe daquela grande potência que, há alguns anos, mantinha o planeta apavorado. No entanto, simplesmente deixar de lembrar disto pode representar um erro grave e um perigo imenso até para a estabilidade do mundo.
O poder político na Rússia está em crise. O grande comandante da mudança, Bóris Yeltsin, que liderou a reação contra a tentativa de golpe que os comunistas pretendiam dar durante o projeto de abertura de Gorbachev, parece hoje uma patética caricatura de si próprio. Enfrenta oposição cerrada, principalmente de um dos partidos que ocupam, atualmente, lugar de destaque no Parlamento russo, o comunista. E a hipótese de os comunistas tomarem o poder no país se mostra mais possível do que nunca. Esta possibilidade, à primeira vista, pode parecer natural: afinal, este é o jogo da democracia. A alternância dos partidos no poder é natural, acontece em toda parte. Ocorre que a história política da Rússia não tem uma dimensão democrática tão grande quanto a de outros países.
A Rússia emergiu apenas há alguns anos para a democracia. Por cerca de 70 anos, foi uma ditadura de esquerda, tremendamente dura. Antes disto, os russos viviam sob o jugo de um monarca, o Tzar, tão duro quanto os comunistas que o sucederam. Ademais, não se pode esquecer que nos anos de domínio comunista, a Rússia se converteu na União Soviética, atingiu um patamar fantástico no mundo, ombreando-se com os Estados Unidos com quem, por muito tempo, estabeleceu o equilíbrio do terror, mantendo o mundo dividido em dois blocos que só não se destruíram por pouco.
Para a população russa, a atual realidade é pior do que a de seus vizinhos ou a dos povos de outros países. Repentinamente, deixaram de ser uma potência e, agora, vivem em situação catastrófica. Não será difícil a alguns demagogos (e existem muitos, ainda, por lá) catalisar a revolta e, depois de um primeiro estágio aparentemente democrático, tentar restaurar a tirania derrubada há tão pouco tempo. Esta situação foi muito comum na América Latina que alternava democracia e tirania com uma incrível regularidade. E, sempre, os golpes totalitários eram precedidos de uma situação de desespero da população, levada pelos salvadores da pátria de plantão (que existem ainda hoje). A diferença é que os povos latino-americanos não chegaram a ser parte de algum tipo de potência mundial. Para os russos, a mudança está sendo mais dura e assustadora. Também por isto, o perigo de uma reversão é maior.
Aos organismos financeiros, este lado da situação não parece preocupar. Verdade que a atitude predadora dos especuladores não é nenhuma novidade. Mas os organismos políticos, as nações mais desenvolvidas em especial, não podem agir assim diante do atual quadro russo. O presidente norte-americano Bill Clinton terá um encontro de cúpula esta semana com seu colega russo, Bóris Yeltsin. E se não tiver a sensibilidade para oferecer um efetivo apoio econômico à antiga potência, poderá estar jogando a Rússia em um vórtice político que talvez a reconduza ao totalitarismo. O que representaria uma nova ameaça para todo o mundo.





