A ameaça do calote
No primeiro ano de vigência do real, aconteceu no Brasil um problema sério, que poderia ter sido previsto: encantada com uma moeda estável, a população se lançou a escalada de consumo que atingiu o auge no período das festas natalinas. Preços estáveis iludiram muita gente, que não atentou para a realidade de que os salários estavam fixos. O resultado foi aumento na inadimplência dos consumidores, refletindo-se, como verdadeiro efeito dominó, sobre o comércio e a indústria. Muitas empresas enfrentaram sérios problemas para honrar seus compromissos e foi elevado o número de pessoas com o nome lançado nos serviços de proteção ao crédito.
Aos poucos, a própria população foi entendendo melhor os mecanismos da estabilização, a situação melhorou e caiu bastante o índice de devedores. É certo que também aumentou, ao longo do período, o problema da queda nas vendas, registrando-se redução no nível de emprego, o que ainda não se recuperou plenamente. Entretanto, como fato efetivamente importante, o projeto todo persistiu e, hoje, o Brasil pode até acreditar em inflação baixa. As projeções para todo este ano indicam taxa pouco superior a 10%, o que é, sem dúvida, enorme êxito. E é plenamente possível, desde que haja esforço efetivo das autoridades para fazer sua parte, que os índices em 97 poderão ser ainda menores.
Curiosamente, porém, informa-se que está ocorrendo, de novo, nesta véspera de final de ano, aumento na inadimplência do consumidor, o que já preocupa o comércio. Naturalmente, esta situação não decorre de equívocos, como os ocorridos no começo do Plano Real, devendo a causa deste quadro ser buscada em outras questões. De fato, hoje a população tem melhor conhecimento de todo o mecanismo da economia, sabe que se os preços estão mais ou menos estáveis os salários também não sobem como no passado, o que significa que o assalariado, principalmente, precisa ter maior cuidado ao assumir qualquer compromisso.
O que está acontecendo, porém, é que o comércio quer (e precisa) vender e busca os meios possíveis para fazê-lo. Além das vantagens de crédito, bem maiores do que nos primeiros tempos do real, é enorme o número de estabelecimentos que oferecem maiores vantagens, ainda que aparentes, tentando conquistar o consumidor. Por trás disto está embutido, muitas vezes, um juro muito pesado. Mas é certo que o atrativo é grande e há quem acabe por ceder à tentação, ainda mais envolvido pela época, que vai se tornar cada vez mais exigente no sentido de se atender aos apelos do consumo.
O certo é que tudo isto implica em sérios riscos, que podem ir além do calote. A inadimplência prejudica o consumidor e o comércio, mas, dependendo do volume, traz prejuízos a todo o complexo econômico. O que aconteceu logo após a criação do real pode se repetir agora. E, sem dúvida, as consequências seriam mais sérias do que no passado, ainda mais porque houve muitas empresas que não se recuperaram plenamente das dificuldades enfrentadas à época.
A atual preocupação que se percebe diante do aumento da inadimplência no mês passado pode ser positiva, na medida em que faz com que consumidores e comerciantes se tornem mais conscientes da situação. Vender a qualquer preço, representa um risco. Comprar sem cuidado, igualmente, constitui perigo real para o povo. E é o consumidor, em última análise, quem deve, outra vez, se mostrar atento e firme neste momento. O comércio está certo em querer vender. O comprador é que precisa saber o que e como comprar.





