A ameaça da grande fogueira
Gaudêncio Torquato
Há uma grande fogueira sobre o solo pátrio, construída com as melhores lenhas da floresta: o Movimento dos Sem-Terra, que expande ondas de pressão e violência por 20 Estados; a criminalidade monstruosa, que deixa marcas cada vez mais sanguinolentas, principalmente nos centros urbanos; a engrenagem da corrupção, com ramificações por todo o território, e que está sendo desvendada pela CPI do Narcotráfico; as manchas do desemprego, que geram insegurança social e propiciam condições para muitas formas de violência; a enorme insatisfação das classes médias com a deterioração dos serviços públicos, a inércia dos poderes públicos para atenuar as tensões sociais e a vida insegura nas metrópoles.
A fogueira está armada, é alta e algumas de suas partes são de fácil combustão. O próprio presidente da República acaba de reconhecer que a queima de alguns gravetos – o germe da violência do Movimento dos Sem-Terra e a superexposição da corrupção – pode provocar um incêndio no tecido institucional.
A questão básica é: quem montou a fogueira, quais os agentes e fatores responsáveis por sua construção? Uma fogueira não aparece por boa vontade da floresta. Forças maiores são responsáveis pelo ajuntamento da lenha na pirâmide. E entre elas, estão os governos, os grupamentos organizados da sociedade e as massas dispersas, que incluem contingentes de todas as classes sociais.
As massas dispersas agem e reagem em função de impactos sobre elas. Acionam o instinto de sobrevivência quando se sentem ameaçadas. Os grupos organizados funcionam como pólos de mobilização e formação de opinião. Mas precisam de um motivo, uma causa, um discurso, para colocar em funcionamento sua capacidade organizatória. Nessa equação, os componentes causais apontam para a violência, que é fruto da miséria social, que deriva da extrema concentração de renda e disparidade social, que, por sua vez, é decorrente de um sistema democrático incapaz de proporcionar igualdade de oportunidades. O dado é recente: 1% mais rico da população ganha mais que os 50% mais pobres.
Portanto, a situação remete para a responsabilidade do governo. Os sem-terra querem terra, crédito, uma reforma agrária justa. Estão exagerando quando invadem prédios públicos? Estão. Um Estado democrático não pode aceitar o império da desordem e da ilegalidade. Mas não se pode esquecer que eles agem em função de uma causa. A violência grassa nas cidades? O desemprego tem muito a ver com isso. Portanto, a política monetarista, comandada a ferro e fogo pelo xerife da economia, Pedro Malan, sob a aprovação de Fernando Henrique, tem relação direta com a violência e o estado de insegurança social. As chacinas em série nas grandes cidades, as rebeliões de menores na Febem, em São Paulo, e os assaltos que se multiplicam por toda a parte se devem, ainda, à fragilidade das políticas públicas.
A crise está levando o País a uma situação de anomia social. A população se sente cercada pela desordem, pela ausência de leis, pela falta de autoridade. Ela aumenta suas taxas de indignação e descrença. E se afasta cada vez mais dos políticos e das instituições. As consequências são graves para a democracia brasileira. A insatisfação acaba abrigando movimentos contestatórios com feição autoritária, sob a complacência social. Ou seja, a população, por falta de crença na autoridade constituída, sente-se motivada a apoiar lideranças ou movimentos que ultrapassam os limites legais para defender seus interesses. Não é raro, nessa moldura, aparecer o tipo aventureiro para tirar partido da situação.
O governo, nesse momento, está tentando agir como bombeiro para apagar o fogo nos primeiros gravetos. Poderá até ser bem-sucedido. Mas não terá como desarmar a fogueira, que continuará crescendo até o dia em que faltar lenha. E enquanto ela estiver montada, será um convite aberto para os fogueteiros de plantão. Que poderão provocar incêndios capazes de devastar a cultura da estabilidade monetária que germinou sob os auspícios do Real. E aí será um deus-nos-acuda!
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular e de pós-graduação em São Paulo e consultor político
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