A alternativa cooperativista
O mundo atual vive o extremo da iniquidade: 1% da população da Terra concentra 99% da riqueza e 62 bilionários têm patrimônio superior à soma de 3,5 bilhões de pessoas, o que aponta para a necessidade de se reverem os modelos organizacionais que estão no centro desses desequilíbrios (ONG Oxfam, 2016). O cooperativismo demonstra ser uma das alternativas socioeconômicas mais viáveis, considerando quesitos como justiça social, democracia e sustentabilidade, diante do domínio de empresas centradas na maximização do lucro e na acumulação individual, o que se traduz num mundo cada vez mais polarizado entre extrema riqueza e indigência.
O cooperativismo surgiu no século XIX como resposta às contradições do modelo de empresa tradicional, ao promover a união entre capital e trabalho, ou seja, o trabalhador tornava-se proprietário de seus instrumentos de trabalho, com participação nos resultados conforme o seu desempenho. A primeira iniciativa formal remonta ao ano de 1844, em Rochdale, Inglaterra, e deve a pessoas como Robert Owen, Charles Fourier, Sidney e Beatrice Webb e Charles Gide os seus principais fundamentos.
O modelo cooperativista caracteriza-se essencialmente pela finalidade de servir aos membros e ao meio em que está inserido, através de gestão democrática, primazia das pessoas e do trabalho sobre o capital e participação equitativa nos resultados auferidos. Além de criar um modelo econômico distinto, o cooperativismo propõe-se a desenvolver uma nova forma de sociabilidade, centrada na solidariedade e colaboração e no empoderamento comunitário.
Não se deve resumir esse modelo organizacional a experiências isoladas, mas entendê-lo de forma integrada e complementar. Sempre que possível, uma cooperativa deve priorizar os produtos ou serviços de outra organização cooperativa e assim fortalecerem-se mutuamente, além de se comprometerem com as comunidades das quais fazem parte. É notório o impacto gerado por uma cooperativa numa determinada região, pois estudos demonstram que localidades onde o cooperativismo é forte tendem a ter melhor qualidade de vida, justiça social e desenvolvimento comunitário.
Segundo a ONU (2016), existem aproximadamente 2,6 milhões de cooperativas no mundo, que envolvem aproximadamente 1/7 da população total do planeta, ou seja, cerca de um bilhão de pessoas está envolvido com esse modelo organizacional, que gera 250 milhões de postos de trabalho. A soma do volume movimentado pelas cooperativas representa aproximadamente 10% do PIB mundial e, nos países mais desenvolvidos, esse porcentual fica entre 20% e 50%. As dez economias mais cooperativistas do mundo coincidem com os países mais igualitários e desenvolvidos socialmente, destacadamente Nova Zelândia, França, Suíça, Finlândia, Itália, Holanda, Alemanha, Áustria, Dinamarca e Noruega. Na Finlândia, por exemplo, 60% das residências privadas foram construídas por cooperativas. Já no Canadá, quatro em cada dez canadenses são membros de pelo menos uma cooperativa e, na província de Quebec, esse número sobe para 70% da população. E 80% do azeite de oliva espanhol é produzido sob esse sistema, assim como 90% do queijo parmesão italiano.
Contudo, deve-se alertar para o risco, sempre iminente, de que as cooperativas caiam na lógica individualista dominante e passem a servir a grupos específicos e que se perca o espírito coletivista que as fundamenta desde a sua origem. É frequente a mão de obra utilizada nas cooperativas não apresentar tratamento diferenciado em relação às empresas tradicionais o que se distancia dos princípios originais centrados no desenvolvimento das pessoas. Essas ameaças obrigam a um fortalecimento da cultura cooperativista para que a chama da solidariedade e do trabalho em prol do bem-comum não se apaguem em todo o mundo.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é economista, administrador e professor da Universidade Estadual de Londrina
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