A alavancagem nacional
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quinta-feira, 11 de outubro de 2001
Paulo Ferreira Muniz 
A Folha publicou, no dia 5, preciosa entrevista com o embaixador Sérgio Amaral, ministro do Desenvolvimento, que merece o aplauso da sociedade, principalmente dos que conhecem, de perto, os principais setores envolvidos na estratégia de reerguimento da produção nacional. Entre eles, o da agropecuária, desdobrada nas indústrias de carnes, couro, móveis, bebidas e têxteis, o de máquinas para calçados, cosméticos, cerâmicas, revestimentos, autopeças e o do turismo.
Ao lado do segmento de agronegócios, o setor turístico, por exemplo, constitui um espaço para o Brasil desfrutar de perceptíveis vantagens sobre outros países. O Brasil possui mais de 8 mil quilômetros de costa marítima, além de complexos naturais como o Pantanal e as Cataratas do Iguaçu. O turismo é a maior indústria do mundo e sua contribuição para o bem-estar econômico, político, social e cultural dos países é inquestionável.
Além disso, já há uma consciência turística na América Latina, facilitada pela globalização, que incrementa o nicho de negócios e o fluxo de informações, por áreas mercadológicas como a do ecoturismo e a do turismo para a terceira idade, pela cultura que emana de um sistema predador, privilegiando o conceito da qualidade de vida, e pelo potencial inerente aos países do Cone Sul.
O Brasil é uma nação de clima tropical e povo acolhedor. O crescimento da indústria pode ser observado pela expansão da malha hoteleira. Em 1997, o número de apartamentos não chegava a 30 mil. Até 2003, serão 77,8 mil unidades, em todo o País. Só um grupo estrangeiro investirá R$ 850 milhões nos próximos dois anos, em 69 empreendimentos. Este ano, ele cresceu 35% em relação a 2000, e 6,1% da força de trabalho nacional atuam diretamente no setor. Ainda há, porém, muito o que investir. Em 2000, entre janeiro e novembro, enquanto os brasileiros gastaram US$ 3,55 bilhões no exterior, os estrangeiros deixaram apenas US$ 1,659 bilhão no País.
No campo do agronegócio, identifica-se outra grande potencialidade do País. Talvez a maior. O Brasil possui 500 milhões de hectares disponíveis para a agricultura, dos quais somente 55 milhões, ou 11% da área total, são utilizados, aproveitando, inclusive, áreas não recomendadas, como de encostas e banhados.
Embora o Brasil seja o terceiro maior produtor agrícola do planeta, perdendo apenas para os EUA e a China, pode incrementar, de forma considerável, a produtividade. Só na cultura de milho, a produtividade nacional gira em torno de 3.135 quilos, contra 8.600 nos EUA, 9.240 nos países da Europa e 4.380 na China. No caso da soja, ganhamos dos norte-americanos: 2.720 contra 2.250 quilos.
Mérito da Embrapa, que vem desenvolvendo um trabalho magnífico junto a entidades privadas, no sentido da pesquisa e do aumento da produtividade. Em Estados como Mato Grosso, alcança-se a média 3 mil quilos por hectare. Um exemplo para o País e prova de viabilidade. Bastam investimentos em pesquisas, vontade e decisão política.
Uma nação com todo esse potencial requer mais atenção por parte dos seus condutores. Neste sentido, é acertada a opção do ministro do Desenvolvimento quando defende uma presença comercial forte nos países consumidores (importadores), por meio de estratégias mais arrojadas de vendas, como a contratação de executivos nestes países, visando a aumentar os contratos de exportação e a experiência em torno dos mercados.
Mas também é preciso investir na produção, na adequação do parque produtivo nacional às exigências internacionais, no financiamento, na adoção de um feixe sistêmico de decisões nas áreas de reforma tributária, treinamento de mão-de-obra, marketing, programas de gestão e divulgação dos produtos nacionais, entre outros fatores.
Exige-se, ainda, muitos investimentos em conhecimento. Eis aí a chave do crescimento sustentável e da alavancagem dos setores essenciais ao País. Além disso, para um planejamento estratégico mais eficaz, torna-se fundamental a avaliação dos gargalos produtivos, principalmente no caso da agroindústria.
Uma avaliação setorial acurada, envolvendo toda a cadeia produtiva, particularmente as partes identificadas como grandes potenciais de exportação e desenvolvimento, é o primeiro passo. O ministro está no caminho certo, e deve contar, agora, com a força das entidades representativas do empresariado nacional para identificar carências e viabilizar soluções.
O Brasil precisa ampliar a participação de todos para avançar, mas deve contar com políticas adequadas às necessidades de cada categoria.
- PAULO FERREIRA MUNIZ é empresário em Londrina e presidente da Associação dos Abatedouros e Produtores Avícolas do Paraná (Avipar)


