Geralmente, nossas relações cotidianas com a água nas cidades passam despercebidas. Elas atravessam e lavam os corpos, sustentam a vida, limpam ruas e casas e estão presentes em todos os alimentos. As águas também transportam ameaças à vida humana e não humana e podem devastar cidades e regiões. Ainda assim, desconhecemos em grande medida sobre a origem da água que usamos, a qualidade e os problemas relacionados a ela. Uma certa alienação da água vem ocorrendo devido à “invisibilidade” dos processos hídricos, à cultura da abundância e porque delegamos decisões sobre a água a estruturas centralizadoras e “distantes”.

Eventos extremos decorrentes das mudanças climáticas, como inundações e escassez, e as reformas e metas do saneamento básico têm colocado, novamente, a água na agenda política das cidades. Contudo, na grande maioria das cidades, os temas hídricos recebem ainda pouca e desarticulada atenção, o que potencializa os riscos e prejuízos, principalmente às populações mais vulneráveis. Exemplos disso são a negligência com as nascentes, a existência de planos de saneamento figurativos e populações urbanas e rurais sem acesso à água em quantidade e qualidade adequadas.

Como enfrentar a alienação hídrica local? Para começar, é importante criar e fortalecer os setores relacionados à gestão da água nos Poderes Executivo e Legislativo e no Ministério Público. Isso poderia ajudar a superar problemas locais como a alienação da água, a maior vulnerabilidade e a desigualdade na distribuição dos riscos e danos, e a falta de iniciativa, de coordenação e de implementação das políticas. Coordenação e implementação deveriam sempre andar juntas quando tratamos de água, porém, nem sempre é o que vemos e é aí que os problemas nas bacias hidrográficas urbanas afloram.

Instituições efetivas devem produzir mapeamentos hídricos e diagnósticos sobre a quantidade e qualidade da água e vulnerabilidades do município atualizados e acessíveis. Planos e relatórios de ações de mitigação e adaptação local às mudanças climáticas e de combate à desigualdade hídrica devem ser elaborados, atualizados e sistematicamente divulgados.

Para promover uma governança da água local é indispensável ativar e ampliar espaços potenciais de decisão como conselhos, comitês de bacias e adequar o marco legislativo. Um protagonismo municipal na gestão da água dependerá não apenas de garantir a representatividade e territorialidade formal de atores relevantes, mas de assegurar materialmente a participação efetiva e responsável deles. Por fim, é preciso ir além dos entendimentos burocráticos e distantes da água para dar visibilidade os seus fluxos no cotidiano. Para isso, precisamos redirecionar as ações de educação ambiental para começarmos a ver o ciclo hídrico irrigando, limpando e conectando mundos, tornando o município um território hidrossocial que deve ser conhecido e cuidado.

Benilson Borinelli e Gilnei Machado – Professores da Universidade de Londrina

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