A agricultura desprezada - Paulo Ferreira Muniz
Paulo Ferreira Muniz
Aquilo que nos parece de simples solução, ao governo parece impossível. Noticiários apontam a alta de preços dos alimentos da cesta básica, notadamente dos derivados do milho e da soja, incluindo-se aí as proteínas animais provindas dos suínos e das aves. Ora o presidente da República culpa os produtores agroindustriais; ora os técnicos do Dieese culpam a entressafra que causa a sazonalidade; ora nem uma coisa e tampouco outra.
O que ocorre é o descomprometimento que o governo federal tem com as coisas da agricultura. Falar em entressafra, neste momento, em um país que tem duas colheitas anuais, quando mais de 50% do ano já está colhido, é ilógico.
A verdade é que plantamos pouco, e o que plantamos, com baixos investimentos no preparo do solo, colhemos com baixa produtividade. Por conseguinte, com baixa produção. O milho tem produção que mal dá para alimentar os 161 milhões de brasileiros ainda que 30% destes não acessem com um mínimo de regularidade as proteínas de origem animal.
A desatenção do governo com a agricultura confirma-se a partir da instabilidade que ele dá à permanência do ministro da Agricultura no seu cargo. O governo trata o cargo de forma absolutamente política. Já passaram pelo Ministério da Agricultura cinco ministros desde o primeiro mandato do governo Fernando Henrique. É muito.
Essa constante e desastrosa troca de comando não deu prazo sequer para um plantio e uma colheita com o mesmo ministro no cargo. Isso mostra que não há propostas de continuidade da política para o segmento. Esperamos que o atual ministro fique até o fim do mandato de FHC e isso deveria continuar no próximo governo independentemente do partido ao qual pertença o próximo presidente, pois a agricultura, antes de mais nada, precisa de política de longo prazo e consistência de posições tomadas.
A falta desta política, onde se inclui financiamentos suficientes a juros possíveis de serem pagos, compromete a produção via falta de produtividade. A China tem uma produtividade de 4,9 toneladas, a Argentina de 5,3 toneladas, os EUA de 8 toneladas, enquanto a produtividade brasileira é de 3 toneladas. Mas pode ser maior: experimentos da Embrapa confirmam que é possível produzir 12 toneladas de milho por hectare no Brasil. Há exemplos comprovados no Paraná.
O governo vem entendendo que é mais fácil administrar a inflação e a estabilidade da moeda com medidas de ordem econômico-financeira. Em um primeiro momento, manteve-se o valor do real em patamares sobrevalorizados, facilitando todo tipo de importação. Desta forma, o governo subsidiou produtos importados em detrimento da produção brasileira.
Em um segundo momento, o governo deixou o dólar ajustar-se, o que nos pareceu corretíssimo. Mas também regulou o tamanho da boca da sociedade, comprometendo a sua capacidade de consumo via arrochos, alto nível de desemprego, juros altos etc. E como a sociedade passa a restringir seu consumo, sobram mercadorias e a concorrência para trazer ao fluxo de caixa a pouca disponibilidade de dinheiro que existe no mercado, quase aniquila as empresas.
As empresas que sobrevivem passam a diminuir a produção, ajustando-a ao consumo possível. O problema é que, ajustadas ao menor volume de demanda, elas passam para o custo toda a ociosidade do setor e o consumidor acaba pagando o desnecessário aumento do custo, através do ajuste do refluxo da economia.
O governo precisa urgentemente fazer a sua parte, como não permitir que tarifas e preços públicos subam acima da inflação (durante o Plano Real, a telefonia subiu 313%, os combustíveis 120%, a CPMF 90%, a Cofins 50%, as tarifas de ônibus 175,85%, as mensalidades escolares 162,26%). Os amigos do rei tudo podem, como cobrar aumento de 178% no custo do cheque especial que, na verdade, deve ser especial de ruim.
Uma sociedade justa deve refletir o equilíbrio de todos que dela participam, mas o Brasil está muito longe disso, pois tem poucos exemplos capazes de indicar o esforço para melhorar. Um desses exemplos, singelo, porém importante, é o da avicultura, que vem diminuindo seu custo de produção, através do aumento de produtividade. Só nesses últimos cinco anos, a avicultura baixou seus preços em mais de 40%, e este ganho de produtividade sempre foi transferido a seus consumidores; e estes sempre responderam com aumento de consumo em 1970, o consumo per capita de frangos no Brasil era de 2,3 quilos; hoje é de 30 quilos.





