A agonia de um lago
Desde sua inauguração em 10 de dezembro de 1959, em comemoração ao Jubileu de Prata de Londrina, o Lago Igapó tornou-se uma das mais belas e frequentadas áreas de lazer dos londrinenses. Depois de certo abandono ocorreu uma primeira revitalização do lago na gestão de Dalton Paranaguá (1969-1972), incluindo um projeto paisagístico de Burle Marx. Ao longo de 57 anos de existência, o Igapó foi esvaziado cinco vezes para procedimentos de limpeza e revitalização.
No entanto, ao longo desse tempo, o complexo Igapó, formado por quatro lagos, foi sendo gradativamente assoreado por terra, sujeira e até lixo, sem que nada, ou muito pouco, fosse feito para sua recuperação. Em alguns pontos, a quantidade de terra e resíduos acumulada é tão grande que existe apenas uma fina lâmina dágua.
O lago 4 está praticamente todo assoreado, e já se forma uma pequena "ilha" de terra no seu centro, tamanha a quantidade de terra acumulada em seu leito, a exemplo do que aconteceu com uma parte do lago 3, onde há muitos anos formou-se uma ilha, próximo da ponte da Avenida Castelo Branco, de tal forma que chegou a crescer duas frondosas árvores onde hoje se abrigam diversas espécies de aves, que até dão um belo espetáculo ao amanhecer e anoitecer.
Conforme levantamento do Instituto das Águas, publicado no portal Bonde em 26/09/2016, "o Lago Igapó possui 321 mil metros cúbicos de sedimentos, entre areia fina, fragmentos de rocha e argila", sendo que "o lago 2 é o mais assoreado, com 99 mil m³ de sedimentos em 171 mil m² de área total; seguido pelo Igapó 3, com 18 mil m3 de resíduos em 45 mil m² de área; o lago 4 com 4 mil m³ de sedimentos em 13 mil m² de área, e o Igapó 1 tem área total de 420 mil m² e 110 mil m³ de material".
Segundo um estudo feito pelo Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina), feito em 2015, havia três alternativas para a limpeza do lago. A primeira delas, com custo estimado em R$ 3 milhões, prevê o esvaziamento do lago e a retirada da terra por caminhões, com a desvantagem do grande impacto ambiental. A segunda seria a drenagem convencional, com dragas a sucção e recalque, com custo próximo de R$ 12,5 milhões. E a terceira opção, considerada inviável, teria um custo de R$ 27 milhões.
Paralelamente a esses estudos, recentemente (08/07) a Folha de Londrina publicou matéria destacando que em 1995 o Ippul teria elaborado diretrizes para a melhoria em toda a extensão do Ribeirão Cambezinho, que abastece o Lago Igapó, e que em 2012 parte dos projetos de revitalização foi apresentada ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), havendo a expectativa de liberação, ainda este ano, de 25 milhões de dólares, equivalente a R$ 79,5 milhões.
Ainda segundo a reportagem, o presidente do Ippul informa que todo esse dinheiro deve ser investido preferencialmente em obras na barragem e lagos 1 e 2, e que o foco, salvo engano, estaria voltado para as intervenções paisagísticas, sendo que o Instituto prevê a construção e reforma de calçadas, manutenção de pistas, piso tátil, ciclovias, academias ao ar livre, novos bancos, lixeiras e iluminação.
Sem dúvida que as intervenções propostas pelo Ippul envolvendo os lagos 1 e 2, os mais frequentados pela população, serão de grande importância paisagística e funcional, pois mantêm e valorizam ainda mais esse belo cartão postal de Londrina.
No entanto, se os recursos pleiteados pelo município junto ao BID no valor total de R$ 79,5 milhões forem de fato aprovados e liberados, é imprescindível que além das intervenções paisagísticas, parte dele seja prioritariamente investida no desassoreamento e recuperação dos quatro lagos que compõem o complexo Igapó, sob pena de condenarmos à morte os lagos que há muito tempo agonizam pelo descaso e abandono.
CARLOS JOSÉ ESTEVAM LIOTI é administrador em Londrina
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