A agonia da aliança Lerner-Belinati - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de janeiro de 1999
José Fernando da Silva 
Desde que o primeiro homem resolveu fazer um cercado e ter ali o que ele chamou de propriedade e outros o imitaram, a humanidade sentiu a necessidade de ter governantes. Eles delimitavam posses, administravam conflitos e, em consequência, detinham o poder, muitas vezes de vida e de morte. Para um único homem ganhar este poder, havia a necessidade de se fazer alianças com os mais fortes de sua comunidade e igualmente com seus vizinhos. Nascia aí a política que, de modo cru, nada mais é do que a arte de ganhar e manter-se no poder.
Milhares de anos se passaram. O homem deixou as cavernas e vive em grandes centros urbanos, mas a essência de sua política continua a mesma. Os políticos podem tergiversar, contar lorotas, fingirem-se de monges trapistas, mas jamais conseguirão disfarçar sua natureza e essência: a eterna luta pelo comando. Mas para se chegar lá, há de se ter mais do que engenharia e arte. Para ser um forte entre os fortes, há de se aliar aos fortes.
Sob o ponto de vista da política existem dois tipos de alianças, a tática e a estratégica. A tática se dá de forma pontual, de forma momentânea e para se atingir um objetivo comum e imediato. A estratégica visa um projeto mais amplo, geralmente a longo prazo e em que as partes aliadas se comprometem a dividir o objetivo a ser alcançado.
Para não teorizar tanto e fazer a coisa de fácil entendimento, basta imaginarmos que temos um time de futebol e somos convidados a jogar. Poderemos jogar apenas um jogo e ter como objetivo unicamente ganhar aquele jogo - faríamos assim uma aliança tática com os outros jogadores e técnico. Mas podemos também querer jogar todo o campeonato e desfrutar os louros da vitória não apenas em uma única partida, mas em todas e consequente título conquistado - teríamos aí formada uma aliança estratégica com o time, assumindo todos os riscos de tal ligação.
Eis o ponto ao qual queria chegar. Causam espanto ao eleitorado as relações estremecidas entre a família Belinati e o governo do Estado, personificado no governador Jaime Lerner. Mas o espanto seria menor, ou nenhum, se todos soubessem que há entre Belinati e Lerner, entre o interior e a capital do Estado, uma aliança tática, que foi construída para se derrotar inimigos comuns, PMDB-PSDB-PT em Curitiba e PSDB e PT em Londrina, que juntos eram os antagonistas do PDT (depois PFL) no Estado todo.
Passadas as eleições, em Londrina e para o governo do Estado, esta aliança tática, que deu certo até agora, está sendo revista. Os olhos das novas lideranças políticas estão lançados para as próximas eleições de governador, ainda daqui para quatro anos, com as eleições municipais no meio. Cassio Taniguchi, prefeito de Curitiba, Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba e ministro do Turismo e Alceni Guerra, ex-ministro e prefeito de Pato Branco, despontam e correm atrás de uma candidatura a governador pelo PFL e isolam Antonio Belinati, prefeito de Londrina, que está sem partido, e que deseja também ser governador.
Neste xadrez político, a jogada genial foi dada pelo Palácio Iguaçu ao guindar para a Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho o vice-prefeito de Londrina e deputado federal eleito Alex Canziani (PTB). Num provável rompimento entre os grupos de Lerner e Belinati, Canziani poderia ocupar o espaço deixado por Belinati, visto que o vice-prefeito de Londrina também pretende ser governador, mas pode vir a compor com um dos pretendentes ao mesmo cargo do PFL. Mas até lá temos quatro longos anos e uma eleição municipal no meio. Com a água passando por debaixo da ponte, outras alianças táticas poderão nascer neste tempo, prefeitos novos podem despontar como lideranças, inclusive de oposição.
Ao tomar posse, Lerner está dando os primeiros passos para uma candidatura à presidência da República. Greca estará transformando seu ministério numa máquina voltada para ganhar o governo do Paraná. Taniguchi fazendo planos para aumentar ainda mais sua popularidade. Os senadores Roberto Requião (PMDB), Osmar e Alvaro, ambos do PSDB, ficarão na espreita. E a família Belinati - a vice-governadora Emília (PTB), o prefeito Antonio e o deputado estadual Antonio Carlos (PSB), pensarão numa forma de se livrar do rolo compressor montado pelo PFL.
JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


