Walmor Macarini
O ministro da Justiça quer acabar com os agiotas. Será que ele também está pensando em fechar os bancos e as lojas?! Porque, mais agiotas que os próprios agiotas são os banqueiros e os comerciantes. Eis que os agiotas assumidos sempre operaram com juros mais baixos do que os bancos e os cobrados pelas lojas nas vendas a prazo.
Quando os bancos e os lojistas baixarem seus juros nos mesmos níveis da inflação ou dos rendimentos da caderneta de poupança, aí sim o ministro deve cuidar dos agiotas. Só visando os agiotas, não está protegendo os cidadãos contra eles mas protegendo os bancos, porque os agiotas são fortes concorrentes deles. Eliminar um e manter os outros não parece justo, ainda mais tratando-se de um ministro ‘‘de justiça’’.
E os lojistas? Estes ainda vivem com o vírus da inflação e da especulação financeira dentro deles. Porque não visam necessariamente vender, mas fazer agiotagem através da venda, porque ela rende mais que a lucratividade comercial. As grandes lojas sempre preferem que compremos a prazo, e nunca à vista, porque o grande negócio é ganhar nos juros. Que são de até 7% ao mês (em alguns casos mais), embutidos nas vendas a prazo. O comprador incauto paga e não faz contas. Nem procura saber quanto juro lhe estão cobrando. Fascina-se pela mercadoria e pela facilidade de pagar em parcelas, mas não percebe que está sendo esbulhado.
Vejam como é flagrante o ideal da especulação: a propaganda se estriba menos na qualidade do produto e mais nas facilidades de pagar em prestações. A loja, portanto, quer que compremos a prazo. Este é o grande negócio para ela, que assim vira banco, vira agiota, a juro de 7%, quando a inflação medida pelo governo é zero. Não tem negócio melhor!
É muita falta de patriotismo, numa hora em que se reclama a participação de todos para levantar esta Nação.
Aí o comerciante se queixa que as coisas vão mal, que ninguém está comprando, põe a culpa no governo (que também não é santo) e quer que, desse jeito, o Brasil vá pra frente... Colhe-se o que se semeia.
Então, governo, bancos, invasores de terras, assaltantes, lojistas, acabam por igualar-se. Diferentes na forma, mas iguais no sentido. Aí, quando um banco é assaltado, as pessoas nem ficam indignadas. Algumas - quando não há lamentáveis casos de morte - ainda ironizam que é dinheiro a custo zero (e sem necessidade de devolução) entrando no meio circulante...
As lojas (não falamos das minúsculas) estão vendendo não mercadorias, mas dinheiro.
Dia destes fiz rápida pesquisa em algumas grandes lojas, e percebi que nenhuma delas estimulava a venda à vista, mas a prazo. Com juros de 7%. Propus 1,5% de juros, para compra de um televisor. O vendedor riu, em gesto de deboche. Subi para 2%, o deboche continuou.
Agora eles adicionaram mais este ingrediente: o deboche.
Aqui em Londrina tem um Nagib (o nome é apenas um símbolo, para identificar que é árabe), certamente o mais inteligente lojista do Paraná. Tem muitas lojas, com nomes diferentes para ninguém saber que são todas dele, vende barato, parece que sempre está em liquidação, está rico e sempre sorrindo. Há tanta gente comprando em suas lojas que é difícil locomover-se dentro delas. E olha que são espaçosas! Ele não fala em crise, não culpa governo e nem ninguém. O negócio dele é vender, não fazer especulação financeira. É comerciante, não agiota. O truque, sabem qual é? Vender barato e bastante. Ele ganha no volume das vendas. Sempre está voando quilômetros à frente dos outros.
Os lojistas deveriam fazer curso com ele.
Já as franquias chegam gulosas, e nos lançamentos põem os preços lá em cima. Não vendem quase nada. Aí, passado o momento, acabam vendendo na liquidação por metade do preço. Só que a esta altura o modismo já está tomando outros rumos e a mercadoria encalha. Esses comerciantes ainda não aprenderam que ganhariam mais vendendo 50 peças a preço real do que 10 no lançamento, vendo o restante encalhado e afinal sendo vendido pelo precinho do Nagib. Só que o Nagib, a essa altura, já vendeu 500 peças. Porque ele já faz liquidação no lançamento, e assim faz sucessivos lançamentos e sucessivas liquidações...
Na base da rapinagem (verdadeira lei da usura) ninguém prospera e o País vai à bancarrota.
Mercadoria já cara e ainda carimbada com juros altos nas vendas a prazo mofa nas prateleiras, enquanto o dinheiro (pouco que seja) mofa no bolso do consumidor retraído.
Já escrevi que não é ruim que estes maus empresários quebrem, porque assim o meio vai-se purificando e eles irão abrindo espaços para os homens do Brasil novo, que estão chegando. São os jovens, com nova cabeça, e estes salvarão a pátria.
Tudo se rege por leis imutáveis de causa e efeito e nenhum negócio prosperará estribado na especulação e na ilicitude. Pode durar um tempo, mas não todo o tempo.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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