A África que não conhece o Brasil
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terça-feira, 03 de dezembro de 1996
Antoninho Marmo Trevisan 
O presidente Fernando Henrique Cardoso deu um show na África do Sul. Chefiando uma delegação de 74 empresários da Missão Século XXI, foi saudado por Mandela, o mais importante líder político vivo, como um dos mais inteligentes chefes de nação em todo o mundo. Fernando Henrique Cardoso foi o único chefe de Estado convidado a visitar, no bairro negro de Soweto, a casa simples do guru e principal conselheiro do presidente Mandela, Walter Sisulu, que acompanhou este líder carismático nos seus 27 anos de prisão. Tudo para expressar a gratidão do povo sul-africano pela posição brasileira de não aceitar o apartheid.
Em sua última noite no país, Fernando Henrique Cardoso reuniu-se com a delegação brasileira para avaliar o resultado da missão. No geral, tudo saiu muito bem. Ampla cobertura da imprensa local, empresários brasileiros e sul-africanos fechando negócios e o governo firmando acordos que vão incrementar o comércio exterior entre os dois países, hoje na casa dos US$ 600 milhões, com desvantagem para o Brasil, que importa cerca de 10% a mais do que exporta.
O que dá certeza que a África do Sul será um grande parceiro do Brasil é a participação ativa dos negros nas decisões econômicas e políticas. Eles têm uma enorme simpatia pelo Brasil, amam o Pelé e têm profundo respeito pelo fato de o Brasil representar a segunda maior população negra do planeta; mas ignoram quase tudo sobre nós.
O Brasil pode ajudá-los muito na transição que estão atravessando, especialmente porque sabemos operar empresas e negócios para diferentes classes de renda, o que, para eles, ainda é um pouco complicado. Eles não tem, por exemplo, ônibus urbano, mas são fortes em sistemas de irrigação e sabem como ninguém trabalhar minérios. São os maiores produtores de ouro do mundo e atualmente fornecem álcool de carvão mineral para o Brasil. É a sua segunda pauta de exportação. Os países vizinhos como Angola, Zimbabue e Moçambique vivem situação difícil e sua população migra ilegalmente para África do Sul, formando atualmente um exército de 1,5 milhão de ilegais num pais de 135 milhões de habitantes. Johannesburgo é o centro financeiro e industrial, cidade que acolheu a delegação brasileira. Pretória, ao lado, é a capital administrativa, enquanto que Cidade de Cabo, ao sul, é a capital legislativa.
Em Johannesburgo vive-se em duas Áfricas. Numa, onde está localizado o setor hoteleiro e os shoppings, tem-se a impressão de andar por uma Londres renovada. No centro da cidade, se você for branco e andar a pé pelas ruas, a chance de ser assaltado é de 100%. Trata-se de um país de contrastes, buscando o equilibrio de uma convivência que manteve por décadas o preconceito legal contra os negros, tratados até então como animais, embora fossem a absoluta maioria. Agora se trabalha pela paz, que só um líder como Mandela poderia conduzir e que está fazendo o que pode com relativo sucesso.
Mas o que impressionou a todos nós que participamos da visita foi a completa ignorância dos empresários sul-africanos sobre a economia brasileira. Parece que as viagens periódicas do presidente Fernando Henrique a outros países não têm sido suficientes para divulgar o Brasil. Seria urgente desenvolver um programa de manutenção e difusão das coisas brasileiras sobre o que Fernando Henrique foi claro: em nosso pais, a mídia e a opinião pública não compreenderam a importância da informação para a aceleração do comércio exterior. Tudo é tão mesquinhamente fiscalizado que é preciso controlar dos refrigerantes às ervilhas que são servidas no palácio, que não podem ser frescas, mas enlatadas, para não dificultar a cotação de preços. Ele pediu aos empresários que o ajudassem a levantar mais recursos para divulgação Brasil no Exterior. Missão que nos cabe a todos.
- ANTONINHO MARMO TREVISAN é consultor de empresas


