A afeição dos governos pelo ilícito
Cerca de 10 anos atrás, quando as vendas de produtos contrabandeados começavam a ficar mais escancaradas - e o populismo dos governantes dava acolhida ao comércio irregular local -, o dono de uma loja no centro de Londrina, desabafou: ''Isto aqui não tem mais jeito'', referindo-se à sobrevivência do varejo legal. Exagero à parte, o tradicional comerciante, no entanto, fez uma previsão consistente, quando disse: Hoje a permissão é para ganhar voto; amanhã esse comércio ''sem compromisso'' será um compromisso social irremovível. Dito e feito.
Mas o estrago da concorrência desleal no varejo é uma espécie de consequência do que ocorre na indústria. O democratismo no comércio era lembrado esta semana em uma roda de comerciantes em frente ao Edifício América, em Londrina e, coincidentemente ontem, a Agência Estado concluiu uma reportagem sobre outro tumor malígno. Os ''made in''. O título: Concorrência desleal de piratas e de contrabando inviabilizou setores nacionais. Em apenas dez anos, a concorrência desleal dos produtos piratas, contrabandeados e importados de forma ilegal, praticamente inviabilizou a produção nacional de escovas de cabelo, armações de óculos, óculos escuros e pedivela (peça da bicicleta onde se encontra a catraca frontal), entre outros. Esse processo foi acelerado pela valorização do real ante o dólar.
Jogando contra os interesses nacionais e da indústria legal, os governos agem de três formas em favor dos agentes predatórios. Não regulamenta a entrada de produtos; é permissivo quanto à qualidade e trava a indústria nacional com pesados impostos.
Apenas para ilustrar: em 1999, existiam 30 fábricas de escovas de cabelo no Pais, que respondiam por 95% das vendas. Hoje, restam só duas e a participação do produto nacional caiu para 20%. De um total de 300 fabricantes de armações de óculos e óculos escuros, apenas 30 sobreviveram e têm atualmente apenas 5% do mercado, ante 95% há dez anos. Todas as nove fábricas de pedivela fecharam as portas. Em 1999, elas detinham 95% das vendas no País. Mas o Brasil, pelo menos, é Patria mãe gentil: ajuda a gerar empregos lá fora.





