A advertência de Juno Moneta - Nelson Oliveira
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quarta-feira, 26 de agosto de 1998
Nelson Oliveira 
Parece fora de questão que o Brasil não é a Rússia. Na segunda-feira, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, citou algumas fortes razões para demonstrar isso. Uma delas, é a diferença entre o Produto Interno Bruto (PIB) dos dois países. A distinção mais perceptível, no entanto, é quanto à organização das duas economias, tanto no setor público quanto no privado. Mal saída da empreitada socialista, a Rússia é um balaio de gatos.
Por uma série de motivos, nós não somos a Rússia. Isso quer dizer que sobreviveremos melhor a um ataque especulativo - não quer dizer que não sofreremos muito. Mas pensar nas consequências terríveis de um ataque especulativo não ajuda muito a refletir sobre o que já está acontecendo e o que virá depois das eleições.
De certa forma o ataque já começou. Vem na forma de ameaças verbais - como a do economista-chefe do Banco Santander, Danny Rappaport, publicado na imprensa: Ou o Brasil promove um ajuste fiscal violento, ou os investidores vão jogar contra a moeda. O ataque também se manifesta na retirada de financiamento de débitos externos de prazo mais curto. Pode-se dizer que, nesse caso, os investidores estão fugindo, e não atacando? Nunca se sabe. Os agentes atuam em diferentes pontas do sistema segundo um lógica estratégica global. O que interessa é que há desconfiança em relação ao País.
De segunda-feira para cá, o Banco Central anunciou diversas medidas para manter o capital de curto prazo aplicado no País e recuperar a confiança dos agentes externos. Embora nos facilite o financiamento, as medidas nos empurram para o curto prazo. Além desse aumento de exposição, a piora no quadro externo já está induzindo a menor crescimento da economia. Ninguém pode apostar como será o Natal.
Uma coisa é certa. Se o presidente Fernando Henrique Cardoso for reeleito, vai baixar medidas de arrocho para apaziguar de vez os investidores. Da última vez que isso aconteceu, em novembro do ano passado, a economia diminuiu o seu ritmo e o desemprego aumentou.
O diretor da Logus Participações, Renê Garcia, lembra que é difícil para o presidente e sua equipe assumirem que farão uma recessão daqui a alguns meses. Isso os deixaria com pouco poder de manobra para distribuir os custos do ajuste. Políticos e industriais vão chiar, prevê Garcia, ex-diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Como estamos imersos num quadro de atraso intelectual (das esquerdas), subserviência cultural (da imprensa) e fundamentalismo neoliberal (do governo), o debate sobre as saídas para a crise e a discussão de um projeto para o País fica empobrecido.
Resta apelar para os deuses. No refrigério de um livro sobre mitologia, encontro a origem da palavra moeda. Vem de um dos nomes da deusa romana Juno (Hera para os gregos). Em homenagem a Juno Moneta, ergueu-se ao lado do Capitólio romano um templo vizinho ao prédio em que se fundiam as moedas do império. Moneta, diz o livro de Gustav Schwab, quer dizer a que adverte. A origem dessa qualidade vem do ganso, a ave sagrada de Juno. Com seu grasnar, os gansos do templo advertiram os romanos de uma invasão dos gálios.
Uma bela história. E sugestiva. Hoje ouvimos o grasnar, não de aliados que nos advertem do perigo, mas dos que tentam arrastar o País para o pântano. É hora de defender a moeda. De preferência com um projeto de fôlego.
- NELSON OLIVEIRA é jornalista em Brasília


