A administração pública e a moralidade
Nossos distritos policiais estão com sua capacidade estourada e interditados. Existem mais presos do que lugar para eles! O aumento da criminalidade é proporcional à falta de recursos do sistema de segurança, que se traduz inevitavelmente em escassez de gasolina, de viaturas e recursos tecnológicos para combatê-la. A fotografia das celas superlotadas é a radiografia de um sistema decadente que se mostra incapaz e impotente perante as demandas de uma sociedade cada vez mais violenta. Nós temos medo da população inchada de nossos presos e eles descobrem que nosso medo é apenas hipocrisia e incapacidade de mudarmos o atual sistema. Na verdade, a crise não está nos bons ou maus Distritos Policiais! Ela existe sim, mas é uma crise de valores, de ética. Onde está a moral de uma sociedade que bota na prisão um velhinho que rouba umas plantas para fazer chá para sua esposa doente e se sente impotente para trancafiar criminosos de colarinho branco que dilapidaram o patrimônio público?
A população carcerária de nosso País não é exagerada. Ela é selecionada. Mal selecionada, por sinal. O deputado federal Padre Roque ficou surpreso de verificar que na PEL, os brancos eram maioria... por quê? A razão está nos dados sobejamente conhecidos, que afirmam duas das principais caraterísticas de nossos detentos: pobres e pretos. Um país que seleciona seus criminosos é um país injusto e imoral! Quem legisla, legisla em causa própria. Quem executa, mune-se de critérios fundados na necessidade de perpetuar a espécie... e assim, criminosos investigados pelo Ministério Público e denunciados, têm tempo hábil para deixar o País ou pior, passear por aqui mesmo, como se nada estivesse acontecendo!
A mentalidade de que este ou aquele crime não se integra no contexto dos presos habituais e por isso não tem lugar entre eles, não estaria ganhando corpo e perigosamente influenciando o inconsciente coletivo de nosso povo? Se assim não fosse, como se justificaria a tranquilidade aparente dos que incorreram em falcatruas e irregularidades na administração, que continuam sua vida normal, como se nada lhes dissesse respeito? E como se explicaria a própria defesa que lhes vem de uma parcela da população, entendendo que não praticaram crime algum?
O grupo pela Moralidade na Administração de Londrina nasceu de uma necessidade-limite de questionar, mais do que pessoas, uma mentalidade. A convicção errônea do rouba mas faz tem sido a mãe de tragédias incontáveis neste País. À sombra do populismo fabricante de obras faraônicas geralmente superfaturadas, cresceram políticos e aumentaram riquezas vergonhosamente com dinheiro público.
A moralidade e a ética no contexto de uma administração municipal, estadual ou federal exige a vigilância constante e a cobrança efetiva por parte de uma sociedade politicamente esclarecida e moralmente equilibrada. A denúncia vem acompanhada da investigação que por sua vez exige capacidade, recursos e acompanhamento da população. Esta se organiza em fóruns apropriados visando estar alerta a todo o processo. Nasce assim a consciência coletiva de que o povo é soberano e de que é a força maior num processo democrático.
Lutar pela moralidade na administração pública é tentar mudar as premissas do sistema criticado nos parágrafos anteriores. Por isso que o descanso só terá lugar quando o dinheiro desviado (roubado) tiver sido devolvido aos cofres públicos e os responsáveis punidos exemplarmente. Aí mudaremos o perfil de nossa população carcerária e daremos credibilidade às nossas leis (por sinal extremamente bem elaboradas).
A imoralidade em termos de administração é a fonte da maioria das mazelas sociais. Se os recursos em si já não são os ideais, imagine-se uma situação em que até esses são desviados. Não estranharemos então merendas escolares com problemas, atraso em repasse para entidades sociais, empenhos cancelados ou até inviabilidade de pagamento de salários. Tudo é possível quando o crime anda solto nos gabinetes da administração pública.
- PADRE MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é pároco na Igreja Imaculada Conceição, assessor de Comunicação da Arquidiocese de Londrina e membro do Movimento pela Moralidade na Administração Pública





