Nos tempos da inflação galopante e enfurecida, o trauma era causado pela máquina de remarcar preços no supermercado. Havia pessoas que corriam por entre as prateleiras de mercadorias ao menor sinal de que um remarcador estivesse entrando em ação - a intenção era chegar antes dele à estante dos produtos que teriam os preços aumentados. Quem conseguisse apanhar alguma coisa ainda com preço velho, durante a operação de remarcação experimentava um especial sabor de vitória sobre o ‘‘sistema’’. O consumidor agarrava com as duas mãos a garrafa de vinagre e lançava um olhar desafiador ao funcionário ‘‘armado’’ com uma pistola de etiquetar. Nessa época, dizia-se que todos os brasileiros eram especialistas em economia - pois o País convivia com o câncer da corrosão diária da moeda, e não morria. Graças à maravilha curativa da correção monetária. Quem poupava, tinha. (Mas tinha que ter para poder poupar.)
‘‘Nessa época’’? Até parece que isso foi no século passado!? Até parece que não faz cerca de um lustro que lançados no mar revolto da inflação, o povo se agarrava em bóias salva-vidas - enquanto que, no transatlântico, em ritmo de cruzeiro (ou de cruzado), navegavam plácidos, os bancos, os governos federal, estaduais e municipais, as autarquias, o primeiro time de elite etc. Vigorava a maldição do overnight no castelo assombrado do open market. Os números tinham tantos dígitos que, por falta de espaço nas calculadoras, volta e meia eram cortados alguns zeros.
Os privilegiados investidores em cadernetas de poupança podiam viver a ilusão de que suas economias ‘‘rendiam’’ muito mais que os 0.5% de juros, legais, ao mês. A astronomia do saldo mensal ficava por conta do artifício numérico que corrigia (isto é, tentava corrigir) o poder aquisitivo do dinheiro. (Tem gente sentindo falta disso até hoje.)
Daí veio a salvação. A moeda ‘‘caiu na real’’, virou real (em que pese a monarquia haver perdido a vez no plebiscito de 93) e o povo viu que isso era bom. Que beleza! Deu para fazer um orçamento válido por um mês, por um bimestre, por um semestre... O sonho seria sentir o prazer de ver publicada, no ano anterior, uma revista com todos os preços que seriam praticados no ano seguinte - um american dream tupiniquim.
Pois justamente quando o brasileiro já quase perdia o sotaque do economês do desespero, eis que chega um novo pacote econômico. Lá fomos nós, desempoeirar da memória os registros do Dílson Funaro conclamando a população a apoiar o Plano Cruzado. Desta vez o problema foi a crise financeira internacional. A bolsa de valores dos países do Sudeste Asiático sofreu uma queda extraordinária, com reflexos negativos nas bolsas dos países mais importantes do mundo. Com medo da desvalorização do seu dinheiro, os grandes investidores se retiraram do mercado, boa parte levando consigo o tal do smart money (‘‘dinheiro esperto’’, comprado barato num país e aplicado caro em outro, na especulação).
A pior fase desses pacotes todos é a da divulgação e da repercussão. A imprensa continua tendo que produzir um ‘‘furo’’ por dia. As empresas que apostam no pessimismo dão ênfase às falhas do plano (não existe plano sem falhas); as que apostam no otimismo, valorizam o que eles tem de bom. Dize-me o jornal que tu lês e eu te direi quem tu és. E nos percamos todos na ‘‘achologia’’. ‘‘O que é que você achou do pacote econômico?’’, perguntaram os repórteres. E a opinião do ‘‘Eu acho que...’’ vai parar na primeira página. Quem é que não ‘‘acha’’ alguma coisa a respeito de qualquer coisa? Obviamente, ninguém pensa em primeiro perguntar ao cidadão comum se ele entende de mercado internacional, para depois saber o que ele acha, por exemplo, do aumento dos juros. Francamente, não sei se presta esse tipo de jornalismo.
De um modo geral, aumento de impostos, de juros, da taxa de embarque, só arrancam cara feia das pessoas. São medidas impopulares. Ah, é? Então, ponto para o Fernando Henrique Cardoso, pelo gesto genuíno de estadista: a menos de um ano das eleições, arrisca sua candidatura em remédios amargos à conjuntura econômica. Prova de que aquela história do ‘‘governo sustentável’’, da campanha da 94, não era conversa fiada. Fosse um populista, tascaria um remendo meia-sola, bem bonzinho, que aguentasse ao máximo até outubro do ano que vem.
Nenhum pesquisador de opinião me perguntou nada, por enquanto. Mas eu também ‘‘acho’’ alguma coisa. Acho que o pacote trará medidas complementares mais severas do que essas - e que, mesmo assim, devemos apoiá-lo. A não ser que queiramos voltar ao duelo com o remarcador de preços do supermercado. (Nessa crise, só a oposição espuma de felicidade).

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