A abolição ainda está por vir
Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda são dois dos pensadores brasileiros que mais influenciaram a visão que temos de nós mesmos, ou seja, que formularam o que se tornaria a percepção dominante sobre a sociedade e a compreensão da realidade nacional.
Quando foi publicado o livro "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, em 1933, a compreensão da questão racial no Brasil incorporou um certo traço romântico, construindo-se uma visão de um país quase livre de preconceitos, onde as diferentes raças conviviam harmoniosamente, servindo de modelo para o resto do mundo. A partir dessa perspectiva, ao longo do século 20 ganhou força a teoria da mestiçagem e enalteceu-se a ideia da "democracia racial brasileira", segundo a qual a miscigenação entre portugueses, negros e índios teria dado uma característica ímpar e superior à formação nacional. Algo oposto ao racismo segregacionista institucionalizado nos Estados Unidos.
Outro pensador seminal da cultura brasileira foi Sérgio Buarque de Holanda. Em "Raízes do Brasil", publicado em 1936, cunhou o conceito de "homem cordial", segundo o qual o brasileiro seria um indivíduo movido pela emoção, pelos afetos, pelos sentimentos, incorporando um caráter personalista e informal em boa parte de suas atitudes. Em sentido inverso, manifestaria um desprezo pela racionalidade e pelo cálculo, distinto dos norte-americanos que deviam à racionalidade instrumental o sucesso do capitalismo por lá.
A cultura brasileira sempre obstaculizou as formalizações políticas e legais, além da dificuldade em separar a esfera pública da privada, expresso no conceito de patrimonialismo, que se desdobrou em desonestidade, corrupção e impediu o desenvolvimento da cidadania. O Estado é percebido como uma extensão da família patriarcal, priorizando-se o apadrinhamento ao mérito, e a realidade é dividida entre amigos e inimigos, assegurando aos amigos tudo e aos inimigos a lei. Há um verdadeiro fascínio e culto ao personalismo, à ostentação da riqueza, símbolos de status e a formas de hierarquização da sociedade. As assimetrias econômicas e sociais são justificadas como resultado da superioridade do grupo dominante sobre as massas, e explica-se a pobreza como um problema de incompetência dos estratos "inferiores", vistos como preguiçosos e pouco inclinados ao trabalho.
Jessé Souza, um dos sociólogos contemporâneos mais inovadores, critica os autores tradicionais por terem amenizado, ou mesmo desconsiderado, o crucial impacto da herança escravocrata nacional sobre todo o tecido social. Fomos o último país a abolir a escravidão há pouco mais de 100 anos e, mesmo depois de fazê-lo, esta não foi superada de fato, condenando os ex-escravos a uma condição de total descaso e abandono. Para Jessé, não foi o patrimonialismo o que mais contribuiu para a formação nacional, mas a escravidão. O Brasil, segundo ele, não é filho da elite patrimonialista lusitana, mas sim da instituição escravocrata que vigorou, como em nenhum outro país, de 1533 a 1888.
Esse traço marcante e indigesto da nossa cultura desdobra-se no desprezo que boa parte da classe média e alta devota ao pobre, obstaculizando qualquer tentativa de ascensão dessa classe social historicamente estigmatizada como inferior, o que revela a forte herança escravocrata. Misturam-se dois medos, o primeiro é de perderem o domínio sobre os estratos mais baixos, num culto à exclusividade e à supremacia. Um segundo temor é que a ascensão das classes subalternas venha dificultar a sua exploração, visível nos baixos salários, limitação de direitos e destinação das atividades mais indesejáveis e insalubres. O ódio ao pobre e a tudo o que representam as classes populares é a continuidade do ódio ao escravo. Na realidade a abolição ainda está por vir.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS, doutor em ciências sociais e professor da UEL
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