80 ano do PCdoB
Num país como o Brasil, em que é patente a fragilidade das instituições político-partidárias, no geral marcadas por óbvias insuficiências teóricas, ideológicas e políticas, destacam-se os 80 anos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), completados no dia 25 de março. Surgido no bojo do desenvolvimento e da afirmação social e política do proletariado brasileiro, herdeiro da luta dos setores médios e democráticos avançados e sob o influxo da experiência internacional do movimento operário cristalizada na Revolução Russa de 1917, o PCdoB construiu uma trajetória longa, intensa, quase sempre dramática, toda ela calcada numa agenda de princípios e lutas, marcando presença influente em todos os episódios da luta pela democracia, pela soberania nacional, pelos direitos dos trabalhadores e de todo o povo no Brasil a partir de 1922.
O partido político mais antigo do Brasil em atividade, o PCdoB aporta aos 80 anos de existência como organização em expansão e florescimento, em plena vitalidade teórica e organizativa. Está presente em mais de mil municípios (que concentram 75% da população brasileira), no movimento social, no parlamento, no executivo de Estados e municípios. Na Câmara Federal, sua bancada conta hoje com 10 parlamentares. Possui influentes deputados estaduais e mais de uma centena de vereadores. Sua ação política é ampla e busca construir a mais abrangente união das forças democráticas e progressistas como instrumento essencial para impulsionar o progresso e o avanço social e político no País.
Na trajetória do PCdoB inscreveram-se momentos emblemáticos da vida política brasileira a partir do início dos anos 20 do século passado, a começar pela organização e direção da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e da insurreição em 1935. Seguem a luta pelo ingresso do Brasil na guerra contra o nazi-fascismo, pela redemocratização do País, pelo monopólio estatal do petróleo. Com a vitória sobre o nazismo, em 1945, o Partido desfruta de pouco mais de dois anos de existência legal. Nas eleições de dezembro do mesmo ano, elege 15 deputados e um senador. Seu candidato à presidência, Yedo Fiúza, arrebanha 10% da votação nacional. Seus efetivos se elevam para 200 mil membros. Nas eleições de 1947 os comunistas ampliam sua influência e suas vitórias eleitorais nos principais centros do País. Alarmado e reacionário, governo Dutra coloca o partido na ilegalidade e, em janeiro de 1948, cassa o mandato dos seus deputados. O PCdoB só voltará à legalidade quase 40 anos depois, em maio de 1985, logo após a derrota da ditadura militar.
Nos anos 60, o partido mantém-se à frente da luta contra o regime militar e a crescente dominação imperialista norte-americana. Dirige, no início dos anos 70, a Guerrilha do Araguaia, marco heróico na história das lutas do povo brasileiro. A partir de 1977, participa da luta pela anistia ampla, geral e irrestrita, pela convocação de uma assembléia nacional constituinte, pelas eleições diretas para presidente da República, pela eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, visando a transição democrática, pelo impedimento de Fernando Collor e na resistência ao neoliberalismo com que as potências hegemônicas em particular os EUA pretendem recolonizar o Brasil.
Ao completar oito décadas de existência, o PCdoB afirma-se cada vez mais como necessidade histórica para o êxito da luta nacional e democrática e da emancipação dos trabalhadores, além de referência teórico-ideológica, política e organizativa para os militantes da luta do povo no Brasil e todos os que, onde quer que seja, buscam o futuro socialista. A trajetória do partido comunista demonstra, além do mais, o quanto sua existência é indispensável à democracia, tanto que sempre que seu funcionamento foi coibido, as liberdades públicas acabaram sufocadas no País.
Os comunistas do Brasil, a despeito dos erros cometidos, nunca fugiram à luta, nunca perderam a coerência, nunca renunciaram aos seus princípios, tampouco se afastaram da vida concreta do País e das aspirações do seu povo. Mesmo quando as pedras do Muro de Berlim ruíram por sobre tantas cabeças desavisadas, esmagando tantas consciências frágeis, os comunistas driblaram o dogmatismo infenso ao desenvolvimento do pensamento crítico e refutaram, ao mesmo tempo, o derrotismo em voga. Ao realizar, em 1992, a crítica das experiências socialistas do século XX, reafirmaram o ideal do socialismo, pregando sua renovação e sua requalificação como única alternativa ao capitalismo, além da barbárie.
LUIZ MANFREDINI é jornalista e escritor em Curitiba





