7 de setembro - Maria Lucia Victor Barbosa
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sexta-feira, 04 de setembro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Na próxima segunda-feira, 7 de setembro, mais uma vez se comemorará a Independência do Brasil. Será um daqueles feriadões ansiosamente esperados, no qual cessa o trabalho enfadonho e o lazer abre parênteses na rotina do cotidiano. Por conta da maioria da população, as estradas ficarão cheias de carros, aumentando o perigo de acidentes. As rodoviárias transbordarão de pessoas, e mais ônibus serão acrescentados aos das linhas regulares. E quem não marcou antecipadamente passagem de avião e estada em hotel, terá que permanecer em casa resmungando de inveja dos que puderam partir em alegre revoada turística.
Nada disso, é claro, tem ligação com sentimento de pátria, sentido da data, compreensão do ato do imperador d. Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon. (Meu Deus, como será que ele conseguia assinar?). Ninguém hoje está nem aí para o grito do imperador, exatamente como em 1822, quando praticamente a totalidade do povo ignorou que o Brasil se tornara independente de Portugal, deixando, portanto, de ser colônia.
Lembro-me que uns anos atrás a data era, pelo menos, melhor comemorada. Recordo-me das paradas de 7 de setembro de minha infância, quando um imenso desfile percorria a Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. Nas calçadas, uma multidão se acotovelava para ver os garbosos dragões da cavalaria (que na minha inocência supunha ser exército de São Jorge), os colegiais cheios de si nos uniformes de gala impecáveis, os militares de passo cadenciado como se compusessem uma máquina de guerra, os policiais civis e militares caprichando na seriedade cívica estampada nos seus rostos. Enquanto a parada seguia seu caminho, a multidão agitava freneticamente as bandeirinhas e dava vivas ao Brasil ao som dos hinos, sentindo que a pátria estava segura com tanto armamento exibido, e com a saudável juventude estudantil. Se era só festa ou se a visão do desfile conferia algum patriotismo ao povo, não sei dizer. Mas que era mais bem comemorado, era. Naquele tempo, a gente sabia cantar o Hino Nacional de fio a pavio, sem ficar em algumas cerimônias olhando para a pessoa do nosso lado a fim de pescar um verso escapado da memória.
Em todo o caso, nossa comemoração da Independência sempre foi totalmente pífia perto, por exemplo, do 4 de Julho dos norte-americanos. Eles têm um sentimento de pátria que jamais possuímos. E somos também inferiores nesse sentido aos demais países da América Latina, onde se chega aos exageros do ufanismo. Uma piada sobre os argentinos, que ouvi da boca de um deles, ilustra o que quero dizer:
Numa praça conversavam alguns argentinos e um mexicano. Aos poucos foi se formando uma tempestade e raios cortavam o céu em todas as direções. Vamos embora depressa, disse o mexicano, essa coisa de raio é muito perigosa. Que raio, que nada, responderam os orgulhosos argentinos. Aquilo lá são flashes de Deus. Ele está tirando nosso retrato.
Aqui dizemos que Deus é brasileiro. Mas sem muita convicção. E nestas eleições, pela choradeira dos candidatos, com exceção de Fernando Henrique, o único que pela sua condição de presidente faz em vez de ficar falando bobagem, o apocalipse está próximo e nada poderá nos salvar.
Brizola quebrou o silêncio obsequioso que o PT havia lhe imposto, e pintou um quadro sombrio da crise internacional. Conceição Tavares ressurgiu no programa eleitoral para falar com seu peculiar estilo histérico da desgraça brasileira. Recorde-se que a economista já chorou de emoção por causa do Plano Cruzado, que não deu certo, e na campanha anterior para a Presidência instruiu Lula para papaguear no sentido que o vitorioso Plano Real era um estelionato eleitoral. Lula perdeu.
Enfim, há um estranho ar de felicidade com a crise estampada no rosto dos candidatos à Presidência. Menos Fernando Henrique. De Ciro Gomes com seu jeitinho de bom moço, aos outros de aspecto mais para homem de Neanderthal. Em nome da pátria eles rejubilam com a queda das Bolsas no mercado financeiro, torcem pelo quanto pior melhor e anseiam pela volta da inflação. E de tal modo a crise é saudada nos programas eleitorais, verdadeiro festival de mentiras onde se aponta Fernando Henrique como culpado pelo acontecido na Rússia, que os candidatos parecem desejar juntamente com Enéas explodir uma bomba atômica sobre nossas cabeças. Nenhum deles, porém, apresenta solução para os problemas que aponta.
O 7 de Setembro será também festejado pelos chamados sem-terra. Suas lideranças prometem invasões em massa e, aliás, já começaram, dando sequência às costumeiras ações de invadir terras, matar gado, atear fogo a pastos, ameaçar agropecuaristas e famílias de empregados nas fazendas. A palavra de ordem parece ser a de destruir o campo para inviabilizar a cidade. Arrasar e atrasar é o lema pátrio dessa gente, oposto ao de ordem e progresso considerado ultrapassado e pouco propício às pretensões do seu candidato Lula. Como se vê, cada um comemora o 7 de Setembro como quer. Mas o que é mesmo que se comemora no dia 7 de setembro?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora em Londrina


