Sobre os direitos políticos, o parágrafo quarto do capitulo IV da Constituição Brasileira diz que ''são inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos'', o que significa que qualquer cidadão brasileiro cumpridor de seus deveres pode concorrer a cargos eletivos, inclusive a Presidente do Brasil. Observe que a Constituição não fala que são inelegíveis os que não possuem diploma de curso superior, mas o analfabeto no sentido estrito da palavra, ou seja, aquele indivíduo que não sabe ler e nem escrever.
Estes argumentos invalidam totalmente as discrepâncias ditas pelos candidatos portadores de diploma e que se apegam a ele para desqualificar o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, alegando que este não está preparado para administrar o País por não ter feito um curso superior. Collor manipulou muito bem este discurso e, em seguida, Fernando Henrique não fugiu à regra e novamente estamos assistindo ao mesmo filme protagonizado por Serra e sua trupe. Este discurso, na verdade, reflete muito bem o desprezo que as elites têm pelo povo e o mais agravante é a reificação do preconceito em relação às camadas populares.
Explico. É a típica sociedade estratificada, cada um deve ficar em seu lugar, um trabalhador não deve aspirar uma ascenção social, política ou qualquer ordem que atrapalhe ou desarrume a estrutura do poder. Imagine, há 500 anos tem sido assim, a mesma elite mandando e concentrando a riqueza em poucas mãos, há 500 anos, o Brasil tem sido dirigido por ''doutores'', de repente surge um contraponto que tem origem no meio do povo. E, infelizmente, há um ''consenso fabricado'' de que o povo, aquele que não sentou em bancos universitários, que não aparece na mídia, não frequenta clubes, etc, deve manter-se apartado de situações reservadas a alguns privilegiados, como é o caso da disputa do cargo ao Executivo Federal.
Desqualificar o candidato do PT por não possuir diploma universitário, é desqualificar o povo de um modo geral que é maioria e que vive com menos de um salário mínimo, porque os sucessivos ''doutores'' que governaram o País, governaram para si próprios.
Na verdade, a mensagem do discurso dominante, oculta o preconceito, a arrogância, oculta o que os donos do poder realmente querem que é manter intacto o status quo.
Enfim, Lula é um contraponto aos ''doutores'' da Sorbonne, porque ao contrário deles, se formou na Universidade chamada Brasil. Lula mudou e em breve saberemos se a sociedade também mudou e se, finalmente, enterrará o discurso de 500 anos.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga, doutora em Ciências Sociais-PUC/SP e professora da Universidade Estadual de Londrina e da Uninorte (Universidade Norte Paranaense)

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